Oh, Canadá !

A

FICHA TÉCNICA

Título original: “Oh, Canada”
País de origem e ano: Canadá/Estados Unidos, 2024
Duração: 1 hora 31 minutos
[Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 16 anos] Gênero: Drama
Direção: Paul Schrader

Roteiro: Paul Schrader; Russell Banks (romance original)
Elenco: Richard Gere, Uma Thurman, Jacob Elodi e outros.
Fotografia: Andrew Wonder
Edição: Benjamin Rodriguez Jr.
Música: Phosphorescent

A cuidadosa fotografia de Andrew Wonder, com enquadramentos perfeitos, no estilo estadunidense (ao ponto que faz lembrar “Ordinary People” [1980], por exemplo) situa o espectador no nó da trama: O protagonista, Leo Fife (Richard Gere), vai ser entrevistado por um meio de comunicação para relembrar sua vida. Ele ficou famoso por conseguir não ser enviado como militar dos Estados Unidos ao Vietnã, na década dos anos 70, quando o país estava em guerra. E, também, por ser um escritor de relevância pelo mesmo assunto. 

Fife aceita essa entrevista e vai com sua esposa, Emma Fife (Uma Thurman), para apresentar-se diante de uma câmera a responder 25 questões relacionadas com seu passado. Resulta evidente que, em geral, parece estar lúcido. Mas, por outro, repete em excesso a pergunta se a mulher continua lá. 

O relato vai evidenciar sua vida de jovem, vivenciado por Jacob Elordi. E surgirão assuntos incómodos, insuspeitos. E a sua ambígua ida para Canadá. Também aparecem sua atual situação de saúde física e a forte pressão emocional que está padecendo. 

Tudo isso vai instalar um clima dramático denso, onde o roteiro e a direção de Paul Schrader mostram traços às vezes firmes e em outras passagens algumas incoerências narrativas. Estas últimas deixam em dúvida a qualidade da edição de Benjamin Rodrigues Jr. 

Schrader é um antigo conhecido literário (tem um livro muito consistente titulado “O Estilo Transcendental em Cinema” [1972]). Assim mesmo e, em especial, como cineasta. Excelente roteirista, com abundância de títulos, como “Taxi Driver” (1976), “O Touro Indomável” (1980), o discutido – e muito bem estruturado – “A Última Tentação de Cristo” (1988) e outros. E menos afortunado, como diretor, podendo ser referidos “O Gigolô Americano” (1980), “A Marca da Pantera” (1982), e o recente e, desta vez, aceitável, “Jardim dos Desejos” (2022). Em Oh, Canadá! a novela original é de Russell Banks. E destaca-se o reencontro deste diretor com Richard Gere, após muitos anos e o sucesso de “O Gigolô Americano”.

Algumas das principais características de Schrader voltam a aparecer aqui: Fife é um indivíduo com passado muito questionável (covarde?, infiel?, com decisões frustrantes?). E, paralelamente, elogiável (“artista engajado”, como é definido). E agora, seu relato doloroso perante a câmera pode estar cheio de verdades totais, parciais ou ser fruto de um cérebro com início de forte declínio. Isto último parece mais improvável, porém não totalmente descartável. Seja como for, é, sem dúvidas, uma pessoa isolada, vinculada apenas à sua esposa atual. 

As últimas sequências aparecerão com muitos primeiros planos dos rostos dos personagens – mais um trabalho elogiável do responsável pela fotografia. Essa escolha de linguagem ajudará a acentuar as emoções, nos personagens e, provavelmente, no público. O mesmo que a música, do iniciante “Phosphorescent”. 

Há reflexões interessantes, por exemplo: “Ninguém mente quando ora (a Deus)”; “é sábio fazer como Freud: escutar – esperar”; “quem pode ajudar mais aos outros: um médico ou um empresário?”; “a verdade muitas vezes é terrível, inaceitável”; “posso fazer documentários, mas você pode lidar com as pessoas”; “têm talento, mas nenhuma habilidade”; “quanto mais se odeia a si mesmo, fica mais feliz”.  

O filme tem saldo positivo ao ser avaliado, ainda percebendo-se os defeitos que apresenta (certo caráter teatral; excesso de falas; por vezes uma edição que cria alguma dificuldade para ser entendido ao alternar diversos momentos da história da vida do protagonista).  

Também resulta ser uma obra com conteúdo, mas triste, já que o protagonista possui sérios defeitos e tem cometido erros graves na sua vida, atingindo outras pessoas. Porém, um tipo de espectador com gosto e senso especial poderá apreciar Oh, Canadá! 

Por: Tomás Allen

(Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela California Filmes.)

Ilustração: California Filmes

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