Intenso, impressionante e emocionante. Estas três palavras definem parte do que consideramos fundamental neste filme.
Hamnet (…) é uma obra que não passará despercebida, tendo sido dirigida e roteirizada por Chloé Zhao, já ganhadora do Óscar no ano de 2021, pelo sugestivo “Nomadland”, como filme e diretora, e de centenas de outros prêmios internacionais.

FICHA TÉCNICA
Título original: “Hamnet”
País de origem e ano: Estados Unidos, 2025
Duração: 2 horas 5 minutos
[Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 14 anos] Gênero: Drama
Direção: Chloé Zhao
Roteiro: Chloé Zhao e Maggie O’Farrell
Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Zac Wishart, Emily Watson, Joe Alwyn, Justine Mitchell, David Wilmot e outros.
Fotografia: Lukasz Zal
Edição: Affonso Gonçalves e Chloé Zhao
Música: Max Richter
Crédito da ilustração: Divulgação/Universal Pictures
Baseado no romance de Maggie O’Farrell, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, conta a relação dãe Agnes (Jessie Buckley) com Will (Paul Mescal). Este último é William Shakespeare, o famoso autor de peças de teatro, neste caso, da tragédia titulada Hamlet.
Não se deve esquecer que esta nova obra sobre Shakespeare é uma entre outras, com inúmeras e diversificadas abordagens que oferecem a literatura e o cinema. Neste último formato pode-se mencionar o multipremiado “Shakespeare Apaixonado” (EUA, 1998).
Historicamente, existiria a possibilidade que Shakespeare nem tenha existido, pois não há registros fiáveis da sua vida. Isso dá margem àquilo mencionado de tomar-se muitas liberdades com relação a sua figura. O mais provável é que foi um integrante da corte, mantido por um nobre (o que era habitual nessa época). Nos inícios, escrevia poesia, mas a grande virada aconteceu quando passou a ser um dramaturgo, o que lhe deu fama e riqueza. No filme “Anônimo” (“Anonymous”, EUA, 2011), de Roland Emmerich, se sugere que foi um fraude e que o conde de Oxford foi o real autor das obras de Shakespeare.
Indo à trama de Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, a protagonista é Agnes, mulher simples, que mora em uma pequena aldeia, no interior da Inglaterra. Vive uma vida que sofre severas repressões familiares e sociais, principalmente no que se refere a vínculos com homens e, nem pensar, relacionamentos amorosos ou sexuais.
Por outra parte, ela está muito próxima à natureza e tem uma herança materna com crenças mágicas. Mas toda essa aparente ou efetiva tranquilidade, como tantas vezes acontece, tem uma transformação drástica quando aparece um homem. Trata-se de Will, recém chegado ao local para desempenhar-se em uma escola como professor na área de idiomas ou textos literários.
Eles se conhecem e se aproximam em modo arrebatador. E ambos deverão superar a repressão e os preconceitos que os acossam. Assim, todas as sequências que iniciam o filme, confluem nessa primeira parte de tal maneira que o espectador poderá apreciar como se redondeia cinematograficamente um relato pleno de romantismo. Chloé Zaho sabe filmar.
Casados e com filhos, com uma vida modesta, conseguem sobreviver até que acontece um problema que deixa o homem sem emprego. Como a situação fica insuportável, embora Agnes esteja grávida, Will deve partir longe, para Londres, a fim de procurar ingressos econômicos.
A trama incursiona por terrenos dramáticos. A vida, mas também a morte se apresentam. O filme definitivamente se faz humano, com encontros e desencontros, entendimentos e desentendimentos. Ainda mais: da pena de Will(iam) brota a tragédia, dando lugar a uma das grandes obras de Shakespeare e do teatro universal: Hamlet. Trata-se de drama porque não há condição inevitável; e de tragédia porque sim, seu desenlace negativo é inevitável.
O sinistro, o desgarrador, tem um lugar preponderante no filme. E a atuação protagonista de Jessie Buckley vai derivar, praticamente com certeza, na nomeação ao Óscar como atriz principal.
Há muitos temas profundos ao longo dos 125 minutos de duração: as oscilações femininas íntimas de Agnes e que, de todas maneiras, são naturalmente superadas pela paixão; a luta contra uma sociedade extremamente repressiva; as mentiras que ambos integrantes do casal devem dizer, apertados por esse entorno rígido, implacável até a crueldade; a separação matrimonial e paternal, que traz (ou leva a) dilemas e decisões éticas vitais e de difícil definição; o caráter intempestivo de Will, que o trai e deriva na perda de um trabalho com consequências profundas e de longo alcance; a culpabilidade, que tem um peso angustiante etc.
Não faltam diálogos afiados (sobretudo se considerado o contexto em que aparecem) : – Will: Eu sei quem é você. – Agnes: Conte-me uma história que me emocione. E ele conta um relato com essas características. Mas ela também contará uma história mágica. Tudo isso dará lugar a cenas e sequências belíssimas. Há poesia romântica, quase misteriosa. === – Will (percebendo a si mesmo como inútil, sem ofício e preguiçoso): Sou violento e mentiroso. – Agnes: Você é um homem bom. O espectador poderá lembrar deste último intercâmbio de sentimentos dos personagens, principalmente nas sequências finais. === – Will (sobre uma morte muito dolorosa): Já passou um ano mas eu lembro tristemente do acontecido. – Agnes: Um ano não é nada. Para mim, cada minuto, cada segundo é terrível. === – Aquilo que nos é dado, pode ser retirado a qualquer momento. === – Contra a lei do tempo, ninguém se pode defender.-
Em meio a trabalhos técnicos corretos, há boa musicalização do experimentado alemão Max Richter e certera edição da própria Chloé Zhao.
Em apertado resumo: Sem serem perfeitos já que tem alguns exageros, tanto o filme e a diretora-roteirista quanto a mencionada atriz, merecem fortes elogios, aplausos, parabéns.
Por: Tomás Allen
(Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Universal Pictures do Brasil)
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