Sirât

Trata-se de um “road movie” (filme que se passa em uma estrada ou equivalente). Neste caso, em um deserto de Marrocos, na África. Mas não é uma obra habitual. É forte e, também, reflexiva.

FICHA TÉCNICA

Título original: “Sirat”
País de origem e ano: España, 2025
Duração: 1 hora 55 minutos
[Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 16 anos] Gênero: Drama
Direção: Oliver Laxe

Roteiro: Oliver Laxe e Santiago Fillol
Elenco: Sergi López (como Luis), Bruno Núñez Arjona (Esteban), Stefania Gadda (Steff), Joshua Liam Herderson (Josh) e outros.
Fotografia: Mauro Herce
Edição: Cristóbal Fernández
Música: Kanding Ray Som: Amanda Villavieja, Laia Casanova e Yasmina Praderas

Crédito da imagem:

Divulgação Retrato Filmes

Uma das curiosidades deste filme espanhol (mas com outras contribuições) é que Sirât não é um lugar físico, isto é, como um país ou uma cidade. Trata-se de uma ponte que une o céu e o inferno. É fino e afiado como um cabelo (segundo a imagem teológica, da tradição islâmica).

É uma ponte porque conecta ambos extremos, como símbolo de trânsito vital, que vai evidenciar os limites da vida, a morte e, neste caso, a identidade do protagonista à medida que avança.

Em Sirât há uma mudança física (uma viagem pelo deserto do sul marroquino) e uma espiritual (transformação do protagonista). Paisagem, música, experiências estão vinculadas a esse percurso.

A trama apresenta Luis (Sergi López), pai aflito que está preocupado pelo sumiço faz meses da sua filha, uma mulher adulta. Alguém lhe explicará que essa situação não se pode entender como ‘sumiço’ e sim como uma opção de vida, tomando ela mesma um rumo novo.

Luis tem um dado provável de onde está sua filha: uma rave (encontro de pessoas para dançar, com duração prolongada, de vários dias) no deserto do sul de Marrocos. Para lá parte num veículo grande, mas, antigo. O faz com Esteban (Bruno Núñez Arjona), seu filho pequeno.

Encontra-se com uma multidão que dança desenfreadamente ao compasso de uma música estridente, alucinante. Os que dançam são na sua maioria jovens e muitos com diversas diferenças ou problemas físicos, sexuais etc.

O protagonista se aproxima de alguns deles, com fotos da sua filha, mas ninguém a identifica ou viu. Até que um pequeno grupo lhe informa que há outra rave nesse deserto, mas em um local distante e de acesso muito perigoso. Com eles, Luis decide ir junto com seu filho, afastando-se da caravana principal.

Nada favorece o avanço, inclusive o próprio contexto complexo do país e, provavelmente, do mundo. Tudo é muito conturbado, como, por exemplo, as fumaças nas proximidades, produto de enfrentamentos bélicos, e até se fala e se vê em alguma televisão que teria começado a Terceira Guerra Mundial.

As dificuldades imediatas se sucedem, mas são superadas com enormes esforços. O espectador, muito provavelmente identificado com Luis e seu filho, pode sentir algum alívio cada vez que eles conseguem avançar.

Mas chega um ponto onde a trama se radicaliza. E eis aí onde começa uma virada narrativa e conceitual: o drama passa a ser tragédia. A esclarecedora explicação inicial sobre o significado de Sirât se revela com maior ênfase.

Sirât, o filme, pode sacudir intensamente o espectador. Mas, também, faz pensar muito sobre a vida e a morte, sobre as arbitrariedades que defrontam os seres humanos com problemas físicos, mentais, espirituais. Os “por que” angustiosos penetram profundamente pelas imagens e pelos conceitos que vão sendo semeados nas emoções e na inteligência de quem assiste e, depois, quando se sai da sala e se reflete longamente sobre o visto.

Justo candidato ao Oscar de melhor filme internacional, e também pelo som (espetacular em ritmo e força, sob responsabilidade de três profissionais – detalhadas na ficha técnica inicial deste texto). Excelente a fotografia de Mauro Herce, sem esquecer-se do departamento de cast (com uma escolha de atores que, exceto Sergi López, são debutantes cinematograficamente). E, sobretudo, elogios para a direção e roteiro de Oliver Laxe.

Por: Tomás Allen

(Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Retrato Filmes)

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