O Estrangeiro

Baseado no famoso livro do escritor franco-argelino Albert Camus, o filme pode atrair a atenção não apenas dos conhecedores da obra, mas do público em geral. Não faltam assuntos densos e perguntas complexas.

FICHA TÉCNICA

Título original: “L’Étranger”
País de origem e ano: França, 2025
Duração: 2 horas 02 minutos
[Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 16 anos] Gênero: Drama
Direção: François Ozon

Roteiro: Albert Camus (romance original), François Ozon e Philippe Piazzo.
Elenco: Benjamin Voisin (como Meursault), Rebecca Marder (Marie Cardona), Pierre Lottin (Raimond Sintès), Denis Lavant (Salamano) e outros.
Fotografia: Manuel Dacosse
Edição: Clément Selitzki Música: Fatima Al Qadiri.

Crédito da Imagem: California Filmes

No início do filme se informa que a trama acontece na Argélia, nos anos de 1930. Há uma tentativa de independência da França por parte dos nativos – árabes – e esse contexto geral poderá ser interpretado como influente em algumas das situações que virão depois.

O filme foi realizado em preto e branco, indo na direção oposta do atual panorama cinematográfico, que prima pelas cores. Quando o espectador se pergunta qual o motivo que levou à produção a trabalhar assim, as respostas podem ser, dentre outras: para incorporar o espírito da época neste relato atual; para convidar o público a uma imersão com clima apropriado ao relato dramático, cinza, dos acontecimentos e, em especial, ao caráter do protagonista.

Não deixa de ser curioso que este seja um trabalho do diretor François Ozon, que, em seus 26 longa-metragens anteriores, apresentou imagens com muitas cores (lembramos alguns deles: “8 Mulheres” [2002], “Swimming Pool-À Beira da Piscina” [2003], “Jovem e Bela” [2013], “Quando chega o outono” [2024]).

Há em suas realizações uma preferência por atrizes belas, fotografando seu corpo, mostrando em especial das mulheres e cuidadosamente, determinadas partes. Isto se mantem no O Estrangeiro.

A trama apresenta Meursault (Benjamin Voisin), cidadão francês que é preso e trasladado a uma prisão comum em Argel, em local desagradável e com muitos indivíduos. Ante a pergunta do por que está aí, a sua resposta é clara, embora não tenha explicações nem procure justificativas: “Matei um árabe”.

Depois, há uma sequência na qual a mãe do protagonista morre. Ao comparecer ao cemitério, se sucede o velório e o sepultamento, no qual fica sozinho e não se altera ou comove ao ser cumprimentado por outras pessoas que tiveram relações afetuosas com a falecida.

O relato tem idas e voltas e conduz às circunstâncias em que Mersault cometeu o assassinato. Por outra parte, há um vínculo com Marie Cardona (Rebecca Mader), mulher que já o conhecia, mas após o reencontro, se apaixona por ele e se aproxima decidida a conquistá-lo. Tudo progride, incluindo relações sexuais, e o ápice é a expressão de que ela deseja casar-se. Diante disso, o homem resulta totalmente indiferente: “O casamento é coisa séria?”. Para ele, “tanto faz”. Igual que o amor: “Amar significa algo?” Quando recebe uma proposta para ter um emprego muito melhor, em París, o rejeita e diz: “Mudar de vida? Toda vida é boa”.

Diante da corte julgadora, o acusado se mostra distante, em geral inexpressivo e, embora sempre veraz, comete alguns erros que o podem complicar. Há argumentações muito elaboradas, tanto a favor quanto em contra do acusado. Mérito dos roteiristas. Tecnicamente há bom trabalho de fotografia (Manuel Dacosse), edição (Clément Selitzki) e, especialmente no final, música (Fatima Al Qadin). No quesito atuação: está muito bem Rebecca Mader, como a mulher cegamente apaixonada. Já Benjamin Voisin resulta bastante inexpressivo o que, quando se analisa detidamente, se condiz com o personagem que representa.

O julgamento vai ter uma sentença – que não vamos dizer nem detalhar aqui -. Resultam muito interessantes as argumentações tanto do fiscal quanto do defensor. E o final, ainda que não totalmente fechado, embora a suposição de uma virada se apoie em uma porcentagem que deve ser muito baixa, pode ser discutível.

Definir psicologicamente o protagonista é complexo, mas fundamental pois a trama se centra nele. Não é um psicopata, porém não é “normal”. A carência de emoções autênticas ou poder manifestá-las fazem que o definamos como alexitímico, isto é indivíduo que tem essas características.

A sensação que prevalece no espectador, para além de ficar desnorteado, é de estar diante de um homem absurdo em algumas maneiras. Não há um sentido claro na vida e as convenções sociais não significam nada. É muito introvertido, provavelmente um esquizoide ou autista, que sente emoções mas não as expressa socialmente. Não acredita e não se apega aos rituais sociais.

Como contrapartida ou complemento, é julgado pela sua atitude emocional (por exemplo, não chorar no funeral da mãe). Porém, é um tipo de personalidade, com limitação nas expressões, e não uma patologia. Isto, embora em alguma cena haja um tipo de alucinação (bastante justificada nesse momento). Também muito provavelmente, há falta de medo diante do externo, ainda que seja muito ameaçador ou perigoso.

O Estrangeiro traz temas como a inevitabilidade da morte, a justiça humana (os elementos que considera para condenar ou absolver; o tipo de castigo aplicado), os preconceitos sociais, o destino dos homens. A cena final pode trazer uma perspectiva diferente a como pode ser vivido o acontecido, mas não muda as características gerais do filme.

O fato de ser estrangeiro e ser definido e identificado como tal, pode esconder outra camada interpretativa: estrangeiro apenas por estar em outro país ou estrangeiro diante da sociedade, essa ou qualquer outra? Ou estrangeiro diante da vida?

Por: Tomás Allen

(Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela California Filmes)

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