Cinematograficamente esta produção se defrontou com vários desafios: ter um cão como coprotagonista, contar com um elenco mínimo (apenas três atores profissionais) e um local de frio extremo.

FICHA TÉCNICA
Título original: “Heart of the Beast”
País de origem e ano: Estados Unidos, 2026
Duração: 1 hora e 41 minutos
[Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 14 anos] Gênero: Ação/Aventura
Direção: David Ayer
Roteiro: Cameron Alexander
Elenco: Brad Pitt (como James Belmont), J.K. Simmons (Watkins), Anna Lambe (Nivi) e Uber (como o cachorro Odin, ao lado de outros três cães).
Fotografia: Mauro Fiore
Edição: Dody Dorn
Música: Jared Michael Fry
Crédito da imagem: Paramount Pictures
Neste planeta e no momento atual existe um número muito grande de espécies. Como tal, prevalece a humana, mais estritamente os “Sapiens”. Em conhecido livro que tem esse título, o antropólogo, historiador e filósofo Yuval Noah Harari, explica que esta é uma espécie extremamente daninha. Embora o Sapiens possa ser destrutivo, o vínculo entre um homem e um cão manifesta justamente uma capacidade humana de cuidado, lealdade e afeto. Muito disso aparece em Coração Selvagem, onde há um vínculo muito especial, nobre e elogiável entre James Belmont (Brad Pitt) e um cão, chamado Odin (Uber, um ‘pastor-alemão’).
Há títulos que já tiveram como tema a amizade entre homens e cães. Por exemplo: “Melhor Impossível” (1997), “Amores Perros” (2000), “O Chamado da Floresta” (2020) – que inclusive está baseado em obra literária famosa de Jack London, que conta a história de um cão que se aproxima de um homem, no Alasca do início do século XX; e “Sempre ao seu lado” (2009).
Voltando o olhar para a trama, descobrimos que Belmont é um aposentado das Forças Especiais do Exército dos Estados Unidos, após 30 anos de serviço. Ele e seu cão acompanhante militar estão totalmente estressados pelo que viveram na guerra. Belmont procura isolar-se em um lugar tranquilo, perto da natureza. Só uma pessoa, o caçador Watkins (J.K. Simmons), aparece junto a eles, em uma breve passagem, na qual sublinha que é muito bom escutar o silêncio que há por lá.
Por outro lado e para piorar o quadro, Odin está com uma das patas ferida. Quando o tutor percebe que o cachorro precisa auxílio médico, decide sair com seu avião para procurar essa ajuda, embora saiba que o hospital está longe e uma forte tormenta se aproxima.
Assim, sucedem-se inúmeros problemas nos quais homem e cachorro se ajudam mutuamente. A luta não será fácil e a tensão se apropria das imagens.
Esta sucessão de enormes obstáculos que devem ser solucionados pelos protagonistas faz pensar que o recurso é um pouco reiterativo, embora o roteirista (Cameron Alexander) e o diretor (David Ayer) consigam fazer com que a repetição acabe por reforçar o perfil psicológico dos personagens.
Porém, há uma insistência que não é exclusiva deste filme. Talvez isso se deva à consideração de que o espectador destes dias é imediatista e precisa de tal repetição. Mas o anterior é apenas uma hipótese. Outra perspectiva é que, desde o nascimento da narrativa ocidental, com a virada produzida por Homero (veja a crítica de “A Odisseia”), esse herói se defronta uma e outra vez com dificuldades.
Também em Coração Selvagem os desafios têm esse carimbo. Mas, neste caso, a relação entre os dois seres cobra importância pouco habitual e, ainda mais: o cachorro é um coprotagonista de alto nível. O trabalho de Brad Pitt é muito extenso e intenso. Pode-se intuir que é uma atuação com força suficiente para levá-lo novamente ao Oscar. Mas ainda falta muito até a premiação, e poderão surgir outras interpretações que hoje nem sequer conhecemos e que sejam consideradas superiores. Também tem muito boa atuação, ainda que breve, a canadense Anna Lambe.
A sequência final é memorável. E as reflexões que aparecem em um texto também. Assim se supera a impressão algo negativa do roteiro com esses elementos derradeiros. Completam os trabalhos técnicos, a excelência no treino do animal; a fotografia do experimentado italiano Mauro Fiore; a edição de Dody Dorn (que enlaça situações e permite que o espectador imagine o que vai acontecer) e a música marcante de tensão e emoção de Jared Michael Fry. Quanto ao diretor, David Ayer conseguiu realizar uma obra que se sustenta com apenas três atores humanos e um cão.
Resumindo em poucas palavras: Coração Selvagem possui uma narrativa irregular, repetitiva e previsível em determinados momentos, mas o vínculo entre os dois protagonistas e principalmente o desfecho têm uma força que pode permanecer na memória do espectador. Ainda que haja algumas ressalvas, é um lindo filme.
Por: Tomás Allen
(Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Paramount Pictures)
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