Digger

A história de um excêntrico empresário do petróleo, bilionário, contada em forma satírica e com elementos próprios do grotesco.

FICHA TÉCNICA

Título original: “Digger”
País de origem e ano: Estados Unidos, 2026
Duração: 2 horas e 08 minutos
[Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 14 anos] Gênero: Sátira, comédia dramática
Direção: Alejandro G. Iñárritu

Roteiro: Sabina Berman, Jez Butterworth e Alexander Dinelaris
Elenco: Tom Cruise (como Digger Rockwell), John Goodman (Pres. Compson), Riz Ahmed (Ganesh), Sandra Hüller (Emma Rockwell), Michael S. Stuhlbarg (Vice-Pres.) e outros.
Fotografia: Emmanuel Lubezki
Edição: Stephen Mirrione e Conor O’Neill Música: Cosmo Sheldrake

Crédito da Imagem: Warner Bros. Pictures

Digger, em inglês, pode ser traduzido para o português como ‘cavador’. Neste caso, como em muitos outros, os profissionais responsáveis pela criação dos nomes dos personagens recorrem a palavras que, além de identificá-los, podem carregar significados relacionados à própria narrativa. Fica claro, nesta ocasião, um vínculo direto entre o nome do protagonista e a imagem que ilustra a obra que vai ser exibida. Também, em determinado momento da trama, esse protagonista explicará a importância da pá, o instrumento que um antepassado dele utilizou inicialmente e que esteve na origem de seu enorme desenvolvimento pessoal, familiar e social posterior.

Digger é insólito, de difícil enquadramento quanto aos gêneros cinematográficos. No filme acontecem as mais diversas situações, com tomadas, cenas e sequências variadas. Porém, em geral, pode ser definido como uma realização grotesca. Isto é, prevalece um tom absurdo, com momentos ridículos e outros até dramáticos. Há um exagero deliberado nas atuações, no som, na música, nos personagens, no elenco (“casting”: escolha dos atores e atrizes).

O leitor interessado em aprofundar essa característica do grotesco pode consultar também o texto publicado neste blog sobre “O Esquema Fenício” (2025) https://manualdecinema.com.br/blog/page/5/

A trama apresenta Digger Rockwell (Tom Cruise) como um empresário do petróleo, bilionário, egocêntrico, egoísta, excêntrico e ditador. Sua carreira se defronta com um enorme problema: uma de suas plataformas na Groenlândia tem contribuído para um degelo gigantesco, ao ponto de ameaçar milhões de vidas humanas na Europa, dependendo de fatores climáticos que determinem o rumo das geleiras. A advertência chega a Digger através de comunicações do próprio local onde está acontecendo o fenômeno e, também, pelo cientista Ganesh (Riz Ahmed), em pessoa.

O desastre escala ao ponto de fazer com que o presidente dos Estados Unidos, Compson (John Goodman), se encontre com Digger para discutir a situação, sua gravidade e as possíveis soluções, caso haja. Também ficam envolvidos diversos setores do poder econômico, militar e eclesiástico.

No decorrer dos minutos, e com as situações que variam entre extravagantes e dramáticas, os estímulos provocados nos espectadores são, também, variáveis. A atuação de Tom Cruise merece admiração: além de apresentar uma transformação física e um perfil totalmente diferente do habitual de sua carreira (em especial quando é o agente secreto Ethan Hunt, de “Missão: Impossível”), a exigência em Digger é enorme, ao ponto de Cruise carregar boa parte dos 128 minutos do filme.

Todo o filme oscila entre uma representação teatral e a representação de uma situação global, que atinge o planeta inteiro. Aliás, há aqui um mecanismo que pode ser chamado de metalinguagem, isto é, quando uma linguagem fala de si própria. Por um lado, há uma mise-en-scène teatral fictícia e, por outro, a descrição de ameaças concretas: um mundo exterior que pode ser aniquilado pela ação humana, combinada com fatores naturais. Ou seja: há uma teatralidade dentro da própria narrativa e um contraste entre encenação/farsa e ameaça real.

Iñárritu é satírico e procura descrever a farsa dos poderosos, em especial de Digger e, também, da cumplicidade de todos os que pretendem criticá-los. Nesse sentido, os discursos que pronunciam Ganesh e Digger, desmontando as causas de um colapso iminente, são muito interessantes. Seguem a linha de um princípio ético impecável, mas de improvável concreção: falar sempre a verdade.

Contudo, a trama não prossegue de maneira coerente na linha mais aprofundada que começava a ser desenhada. Também, aspectos técnico-artísticos, como edição e música, sem apresentar falhas escancaradas, não são excepcionais. A fotografia, a cargo do muito bem conceituado Emmanuel Lubezki, não chega ao nível de, por exemplo, “O Renascido” (‘The Revenant’).

As atuações de Goodman, Riz Ahmed e Hüller acompanham Tom Cruise, que, como dito, teve um trabalho intenso ao longo do filme, mas cuja presença também pode chegar a saturar. O problema não está necessariamente na atuação de Cruise, mas na utilização contínua dessa atuação dentro do dispositivo exagerado do filme. Aliás, o filme inteiro pode ter esse efeito. O resultado é um desencanto que não se manifesta apenas de forma imediata — cena a cena, sequência a sequência —, mas também diante do filme como um todo. A crítica que o filme pretende desenvolver fica, ao menos parcialmente, ofuscada pelo estilo quase histérico escolhido por Iñárritu e pela produção. O mesmo exagero pode impedir que o espectador leve suficientemente a sério aquilo que está sendo denunciado.

Fechando, para não tornar também caótica esta crítica: Digger é um filme diferente em muitos sentidos, mas que só consegue interessar e atingir seus objetivos parcialmente.

Por: Tomás Allen

(Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Warner Bros. Pictures, no sistema IMAX)

Copyright 2026 © manualdecinema.com.br – Todos os direitos reservados.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *