Kompromat – O Dossiêr Russo

Kompromat pode enganar… de modo positivo. Porque esse título pode parecer confuso. Porém, em uma aproximação de idiomas seria: ‘material comprometedor’, o que já esclarece um pouco ao espectador. Outra ideia enganosa, de quem tem alguma informação prévia, é que o filme será total e exclusivamente destinado a criticar ou ridiculizar o serviço secreto russo, mas isso não é confirmado ao longo das duas horas de duração. Pelo contrário, pode ser entendido – e/ou desfrutado – como um drama, com sentimentos, paixões, lógica e, também, vacilos e irracionalidade no plano individual. Claro que está presente essa crítica à arbitrariedade, crueldade e até à selvageria da FSB (Serviço Federal de Segurança da Rússia), a atual KGB russa (já não mais soviética).

No entanto, a perspectiva psicológica, emocional, tem uma força muito grande dentro do relato. Há algumas advertências iniciais na exibição: – “Este filme e seus personagens são livremente baseados em fatos reais”. O que pode ser até contraditório (é reflexo aproximado de um caso acontecido ou é uma ficção que apenas tomou um fato como justificativa?). – E, também, por meio de legendas, explica-se que os Kompromat “são documentos feitos para destruir reputações. A palavra, assim como o processo, foi criada pelo Serviço Secreto Russo, que se utilizavam desde o governo contra uma pessoa para desprestigiá-la”.

Este seria o caso de Mathieu Roussel (Gilles Lellouche), diretor da Aliança Francesa em Irkutsk, uma pequena cidade da Sibéria. Depois de uma apresentação teatral bastante audaz, organizada por ele, e uma série de encontros pessoais, principalmente dançando com a sedutora Svetlana Rostova (Joanna Kulig, ascendente atriz polonesa), ele é detido intempestiva e violentamente por forças de segurança. É acusado, de forma injusta, de delitos privados graves. Os reais motivos da perseguição resultam desconhecidos e o espectador pode apenas ter uma suspeita dessa causa. Na prisão, ele apanha das mais diversas e cruéis maneiras. Porém, também recebe ajuda, aparentemente, de Rostova. Essa mulher que dançou com ele está casada e quiçá seja a causa das falsas acusações incluídas no Kompromat de Roussel. Essa ajuda que vai recebendo dentro do presídio e, depois, na sua transitória liberdade, é uma das colunas vertebrais do relato. Também o papel da diplomacia francesa que, neste caso, dá lugar a diversas cenas e sequências que resultam ser entre cautelosas e tensas.

De outros eixos narrativos resultam os vínculos familiares de Roussel, por um lado, e as relações próximas à FSB que Rostova tem, por outro. Além disso, aparecem diversos personagens – um advogado distante, porém não totalmente alheio ao acusado, um motorista que se oferece para dar carona e que se autodefine como filósofo, policiais secretos extremamente cruéis etc. Inimigos de todo tipo (presos, indivíduos comuns que prejulgam e colaboram com a polícia) também vão perseguindo e torturando o protagonista. Depois de muitas peripécias, o final chega. Todavia, a última cena, com uma breve duração (pouco menos de dois minutos e, dentro deles, apenas alguns segundos centrais) é exímia. O espectador ficará pensando sobre o acontecido e o que provavelmente virá.

O diretor, Jérôme Salle, e o editor, Stan Collet, realizaram um trabalho preciso e perfeitamente organizado. Desde a primeira cena, que se fecha e não reaparece até muito depois, ainda que persista como um pano de fundo na mente do espectador, tudo está elaborado com base na montagem. Tudo, ou quase tudo, vai-se expondo por meio da montagem: situações, vínculos, sentimentos – alguns sobrepostos e ou contraditórios. Este último caso acontece com Roussel e, principalmente, com Rostova.

Fotografia (Matias Boucard) e música muito adequada (Guillaume Roussel – sobrenome que curiosamente coincide com o do protagonista – ) completam os principais itens da produção, que se deslocou desde as remotas localidades da Rússia asiática, vizinhas da Mongólia, até a já europeia República de Lituânia (embora no filme seja identificada como Estônia, incluindo bandeira e escudo), próxima da Finlândia. Kompromat – O Dossiê Russo, em seu conjunto, com relato envolvente, unindo diversos momentos e estados anímicos, embora complexo em sua trama, resulta fluído, claro e atraente.

Por: Tomás Allen (Fonte: www.parsageeks.com.br)


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *