Há títulos cinematográficos que são sugestivos, inteligentes, audazes e que ficam gravados na memória por tempo indefinido. Tem outros que não dizem muito e passam totalmente despercebidos. Alguns chamam a atenção do futuro espectador e convidam a assistir. Provavelmente o caso de O Bom Doutor (Docteur?, no original francês) seja daqueles que aparentam pertencer a uma realização meio boba, superficial, nada transcendente. Porém, se for assim, é um equívoco. Porque se trata de uma comédia muito divertida. Simples, sem grandes pretensões, mas que cumpre muito bem com sua tarefa: faz rir, é entretida. Continuando com os títulos, podemos dizer que depois de assistida esta obra, seu nome toma uma nova dinâmica: os espectadores poderão dizer – ou simplesmente lembrar -: Doutor? (tradução do original para o português) e só isso vai causar um riso ou sorriso. Porque deixa um sabor positivo, até alegre.
Outro ponto que vale mencionar é se é mais fácil fazer rir ou chorar. Em cinema, dada a enorme supremacia numérica dos dramas, parece que há algum tipo de preferência para estes. Seja para elaborar roteiros e realizar produções deste gênero, seja pela escolha dos espectadores. Com O Bom Doutor haveria um tipo de resposta à pergunta. Ou vários tipos. Talvez: não há tantos títulos cômicos, porém alguns são inteligentes e/ou bem elaborados. Este é um exemplo nessa linha. Será muito difícil conseguir isso? É um assunto que fica em aberto. O filme se passa na cidade de Paris, no Natal. Seu protagonista (Michel Blanc como o Dr. Mamou Mandi) é um médico que desempenha funções atendendo chamados de emergência que são comunicados desde a central da organização. É um veterano pouco convencional. Já tem uma advertência prévia por sua performance profissional e continua com condutas não muito ortodoxas: irritável, cansado até ficar dormido durante um atendimento, rejeita pacientes que não lhe resultaram simpáticos etc. Diversas situações assim se sucedem até que uma série de acidentes o leva a ficar impedido de continuar atendendo. Acontece que não pode revelar essa impossibilidade e, no limite, decide escalar em seu lugar a um improvisado jovem. É um entregador de comida que tem conhecimentos mínimos de enfermaria (Hakim Jemili como Malek Aknoun).
Os casos continuam, com diversas complexidades, alcançando situações perigosas tanto desde o ponto de vista médico quanto do risco de ficar em evidência a irregular substituição. Os mecanismos que produzem o riso estão presentes: a ruptura da lógica, o imprevisto, o absurdo… Tudo isso vai dar lugar ao riso, fazendo desta uma produção descontraída, até despretensiosa, mas acertada em seu objetivo básico. Também há cotas de drama e de romance (com a presencia de Solène Rigot como Rose), em doses equilibradas e até aparece alguma emoção. Méritos para os mencionados atores (Blanc e Jemili em especial). E para o diretor de fotografia, Frédéric Noir Homme, que oferece uma belíssima Paris. O conjunto, a cargo do novel roteirista e diretor Tristan Séguéla, tem as qualidades já ditas. Este último, na sua terceira longa-metragem, une-se a outros novos realizadores franceses. Por exemplo, os já comentados neste blog no ano de 2019: Sébastien Marnier (“Professor Substituto”, 21/07), Rémi Bezançom (“O Mistério de Henri Pick”, 25/07) e Michel Leclerc (“Luta de Classes”, 25/10) . Todos eles fazem predizer um bom futuro para o cinema desse país.
Por: Tomás Allen (Fonte: www.parsageeks.com.br)
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