Na Síria de 2011 há um casal, um homem e uma mulher apaixonados. Porém, por causa de regras religiosas e culturais, não podem manifestar seu amor. Ele, Sam Ali, decide violar tais disposições, acarretando sua prisão. Um policial lhe facilita a fuga da delegacia, mas isso não será suficiente e nem o único problema: Abeer, sua namorada, está vinculada a outro homem, poderoso e abastado. O panorama se complica e Sam deve sair de seu país e refugiar-se no Líbano. Além da situação pessoal seu próprio país sofre de uma violência extrema, onde cidades inteiras são destruídas pelos bombardeios e confrontos bélicos. Isso estará bem presente ao longo da trama.
Um detalhe que pode chamar a atenção do espectador é que, quando Sam atravessa a fronteira, duas bandeiras (de Síria e do Líbano) que estão na fronte do limite tem as mesmas cores. De fato, oficialmente, são as da bandeira síria. Só que aqui uma das bandeiras aparece com duas estrelas, o que é correto, e a outra com o desenho de uma árvore. Tal imagem pertence à libanesa (que tem cores similares, mas não idênticas como no filme) e não à síria. É um erro grosseiro da produção ou é proposital e procura algum sentido? Qual seria o motivo? Como for, o filme tem muitas simbologias, revelando diversas leituras possíveis sobre seu significado. No exterior, o protagonista apanhará de diversas maneiras. Porém, uma drástica mudança de vida se produzirá quando Jeffrey Godefroi, um famoso pintor belga, o aborda e lhe oferece condições econômicas para poder sair definitivamente do país e viajar pelo mundo. (Outro detalhe: esse sobrenome às vezes aparece com “y” e nos créditos finais com “i”. Aliás, em uma mesma tomada, simultaneamente, com as duas letras diferentes; “i” em uma pintura; ao lado, “y”, em uma placa – 1h38’13’’-).
Em troca, Sam deverá ceder suas costas para serem pintadas por ele e exibidas em museus internacionais como obra de arte. Godefroi (um inteligente trocadilho em inglês God- Deus + from – de -) inicialmente parece propor um contrato legal, porém duvidoso eticamente. Contudo, a personagem revela-se cada vez mais como um cínico, hábil argumentador e polêmico artista. Representante de uma corrente que, ao transformar objetos comuns em obras pretensamente artísticas, Godefroi, afinal, é um artista no sentido preciso da palavra? Aliás, ele se apresenta não tanto como o Diabo senão como um moderno Mefistófeles – tradicional encarnação do mal e perverso enganador de criaturas inocentes. Por sua vez, Sam Ali (Alá?) é alastrado pelo devir dos acontecimentos na sua tarefa de ser uma hipotética obra de arte viva; e no frustrado vínculo com sua namorada – agora casada com aquele outro homem, também morando, como Sam, na Bélgica.
As situações se sucedem e, finalmente, acontecerão reviravoltas muito sugestivas. A mão de Kaouther Ben Hania, diretora e roteirista, evidencia-se cuidadosa e criativa. Não em vão O Homem que Vendeu Sua Pele foi nomeado este ano para o Oscar na categoria de melhor filme de língua não inglesa. Para além dos elementos resumidos, o fundamental dá-se em diversos níveis: como na intensidade do relato, interessante; nas imagens que derivam da boa fotografia (de Christopher Aoun), nas cenas e sequências bem editadas (Marie-Hélène Dozo), na correta atuação de Yahya Mahayni, como o protagonista; de Koen de Bouw, como o artista e de Monica Bellucci como sua secretária privada. Aliás, bom retorno às telas de esta atriz que possui uma longa carreira e reconhecida fama. Acompanha também no elenco, Dea Liane, como a atribulada mulher. No que se refere à trama, o denso conteúdo provoca o pensamento do espectador, em paralelo ao desenrolar dos acontecimentos.
Há inúmeros assuntos de fundo: até que ponto um trabalho pode ser positivo, criativo, libertador do indivíduo e qual pode ser alienante, destrutivo, escravizador? Vender uma parte do corpo é equivalente a prostituir-se? Sam estava certo quando aceitou vender as suas costas? O pintor é um especulador e se aproveita da desgraça alheia ou promove uma possibilidade legítima de obter dinheiro para ambas as partes? E no que tem a ver com Abeer, foi forçada pelas circunstâncias (religiosas, culturais, econômicas) do país e suas próprias, pessoais, a casar-se com um homem rico ao que não amava? Ou pode ser julgada negativamente pelo namorado por sucumbir a essas pressões? Ou ambos saem de uma gaiola para cair em outra, de uma forma desconfortável, porém compreensível e inevitável? Sabemos, realmente, o que fazemos quando tomamos decisões importantes em nossa vida? Ou somos vítimas de nossas próprias limitações e atribuímos fracasso a forças maiores? Será que existem forças objetivas, superiores a nós, que nos colocam em xeque? O Homem que Vendeu Sua Pele levanta todos os questionamentos mencionados, e resulta em um filme enigmático e bem estruturado.
Por: Tomás Allen (Fonte: www.parsageeks.com.br)
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