Que o mundo tem mudado não é novidade. Que o faz cada vez mais, também é sabido. Que a espécie humana (“sapiens”), em particular, passa por transformações é até corriqueiro dizer. Que tais modificações podem ser utilizadas para o bem e para o mal (por exemplo, o uso da Internet). Que algumas são boas – especialmente os avanços tecnológicos, em comunicações, medicina, transportes etc. Que outras são ruins – criação de armas mais sofisticadas, artefatos para destruir etc. E, por fim, que deveriam vir mais mudanças, é um anelo de muitos. Nesse quadro geral, os vínculos sexuais diferentes aos habituais já não chamam a atenção tanto quanto há alguns séculos e até décadas atrás. Nesse contexto, este filme de produção franco-brasileira e direção da portuguesa Maria (de) Medeiros hoje não resultaria tão surpreendente para muitos espectadores. Porém, não é tão tranquilo para outros. A trama tem como núcleo um casal lésbico e apresenta uma fecundação assistida desse casal. Aparecem conflitos advindos dessa maternidade e de que uma das mulheres queira assumir o papel de mãe, sendo que nem é a grávida. Além do anterior, a relação entre a mulher que quer ser mãe (Laura Castro, em seu debut como atriz) e sua mãe (a experiente Marieta Severo) não é precisamente das mais simples. Também o histórico desta última não é muito tranquilo: presa política na ditadura militar, foi vítima de todo tipo de atropelos e sofreu tormentos e torturas diversas. Grávida, na prisão, suportou não só suas próprias desgraças mas também as da sua companheira de cela. Claro que pesadelos monstruosos a visitam periodicamente (Medeiros não poupou mostrar imagens desagradáveis).
Ao relatado, somam-se problemas atuais, em uma favela onde há uma ONG que procura aliviar a situação de alguns meninos pobres e marginalizados, com futuro que ameaça ser muito problemático. Obviamente está o tráfico de drogas e os confrontos permanentes com a polícia. Algumas cenas podem ser citáveis: a primeira, onde a mulher lésbica e engravidada em modo assistido sai de uma igreja católica e se persigna devotamente. Não deixa de ser um paradoxo, pois essa igreja é contrária a diversas formas de concepção, toda maneira que não seja a natural e heteronormativa. A segunda, refere-se à personagem de Severo, que faz um esforço para revisitar seu tortuoso passado tentando fugir do que tinha procurado durante anos, que era esquecê-lo. “(Às vezes) o silêncio nos faz escravos do passado)” – reflete ela. Esta última cena é, talvez, a mais elaborada dramaticamente, embora seja um diálogo, sem apoio visual.
O balanço geral resulta em um filme sofrido, com poucos momentos de certo alívio e/ou alegria (mais do que felicidade). Em modo proposital, as roteiristas (de Medeiros e Castro, com base em peça teatral desta última) produzem uma sucessão de situações conflitivas, até asfixiantes, que podem abrumar ao espectador. Isso, embora já apontamos que o mundo apresenta mudanças até nas relações afetivas, e que isso não deve(ria) causar surpresa. O objetivo geral está bastante definido: Aos nossos filhos está contra todo tipo de preconceito. Porém, a série de problemas apresentados pode chegar a produzir certo esgotamento anímico no espectador. Por exemplo, pode cansar a imagem de Marieta Severo quase sempre triste, angustiada, com pouquíssimos momentos de calma. Assim, assiste-se a uma exibição onde a avaliação final vai depender de uma postura prévia do espectador e do que ele procura no cinema em geral e neste filme em especial. Aos Nossos Filhos é um filme que apresenta diversas situações de vínculos amorosos, sexuais, familiares e sociais. Todas pouco habituais até agora e que podem originar tensões dramáticas. Acumula excessivamente tais conflitos e pode cansar e até chocar em alguns momentos. Porém, como está contra todo tipo de preconceitos, também pode agradar a muitos espectadores.
Por: Tomás Allen (Fonte: www.parsageeks.com.br)
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