‘Moonage Daydream’

Como escrever, de forma coerente, ordenada, um comentário sobre este filme? A pergunta surge devido à produção trazer uma sucessão de imagens, sons (músicas, em sua grande maioria), palavras, vozes, sobre a vida do artista inglês David Bowie, como se fosse uma cascata sem pausa. O documentarista Brett Morgen (direção e edição) fornece uma biografia deste prolífico músico, cantante, pintor etc., com base em material dado pelo próprio Bowie. Cumpre tal tarefa sem interrupções; por momentos é arrebatador, impactante. Além disso, o sistema de projeção IMAX ajuda muitíssimo a realçar um material que é, já por si mesmo, estranho. Com tela gigantesca, som nítido e colocado em volume alto, as 2 horas e quinze minutos são um espetáculo inusual.

A vida de Bowie foi muito intensa, com vínculos não apenas na Inglaterra, mas em diversas partes do mundo: Los Angeles/Califórnia, nos Estados Unidos; Berlim, na Alemanha; Japão, estendendo-se pelo Oriente… Seus interesses foram igualmente variados: a própria música, o ser humano, o cosmos… Tudo isso vai aparecer em Moonage Daydream. E muito mais: um ser andrógino (com concomitantes características femininas e masculinas), de muito improvável definição. As grandes oscilações e contradições, que levam o espectador a ficar em dúvida sobre quem era e como pensava realmente Bowie. Além disso, a elevada percepção de si mesmo (esta imagem grandiosa também reforçada por seus seguidores). Por fim, a presença dos traços megalomaníacos (no sentido de, no geral, demonstrar mania de grandeza). O que não se pode negar, e é retratado no filme, é que teve uma imagem e personalidade especial, sobretudo aos olhos de seus fãs, o que lhe valeu enorme sucesso.

Já na primeira parte do filme, que abrange sua juventude, as perguntas que Bowie se faz sobre o homem, o universo, as relações, o que somos, a existência de Deus – substituído por uma forma de energia cósmica, na qual acreditava – , têm um caráter filosófico básico. Suas impressões, até dele mesmo, são, por vezes, bizarras, desnorteantes. Em alguns momentos parecem lúcidas; em outros, quase próprias da chamada “crise de originalidade” adolescente. O figurino e a maquiagem utilizados ao longo de sua vida são absolutamente esquisitos. Sem dúvida, equipes de profissionais gabaritados, ainda que de modo muito peculiar, insólito, também ajudaram no desenvolvimento da personagem. Porém, é ele, Bowie, quem aparece, inspira, dá base a tais criações. ‘Moonage Daydream’ resulta ser um espetáculo incomum, embora praticamente caótico, sobre a figura do lendário David Bowie. Chamativo, em forma e conteúdo.

Por: Tomás Allen (Fonte: www.parsageeks.com.br)


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