A Farsa

“A Riviera francesa é um lugar ensolarado para pessoas sombrias”, W. Somerset Maugham. No filme, a referência ao famoso escritor inglês é a primeira imagem que surge na tela. Como toda citação literária, ela apresenta em breves palavras o que se desenrolará na trama. O roteirista rende ao mesmo tempo uma homenagem a Maugham que morou na França e algumas de suas narrativas se passam nesse cenário, como o clássico “O fio da navalha”. Relacionadas à mesma estão as imagens do local. Sem dúvida, bonito e atraente. O relato de A Farsa tem algumas cenas iniciais quase caóticas, mas depois se ordenam situando o espectador e apresentando um resultado interessante, embora de compreensão um pouco dificultosa. De todas as maneiras, embora tenha uma mistura de gêneros (por momentos, há toques cômicos; em outros há drama e, finalmente, é policial), supera tais oscilações e o resultado é aceitável. Por exemplo, o humor às vezes não alcança sua proposta, mas outras vezes é indireto, sutil, inteligente.

O casal protagonista está constituído por Adrien, um homem que é uma mistura de preguiçoso e aventureiro (Pierre Niney) e Margot, uma mulher extremamente audaz (Marine Vacth). Eles têm uma relação intensa e concebem um plano próprio de espertos sem remorsos para enganar a duas pessoas ricas e, talvez, um pouco inocentes. Adrien se ocupará de Martha Duval, atriz famosa, mas aposentada (Isabelle Adjani) e Margot de Simon Laurenti, bem-sucedido operador de negócios imobiliários. Na execução do plano, Margot terá a importante ajuda de Giulia Margoni (Laura Morante). Esta última dupla dará lugar, cinematograficamente, a uma excelente montagem paralela – onde Giulia orientará a Margot sobre como atuar para resultar uma sedutora irresistível. Todos os gestos, palavras e movimentos de Margot são um calculo perfeito do roteiro criado por Giulia. O espectador pode desfrutar e até se surpreender com tal paralelismo.

Das atuações sobressai – inevitavelmente – a de Isabelle Adjani, a bela atriz que nos impressionou em “Nosferatu, o vampiro” (1979), “Uma mulher possuída” (1981), “L´été meurtrier” (1983) e outros títulos. Adjani, aos 67 anos, embora num papel que não ofereça a intensidade dramática daqueles outros, conserva suas qualidades intactas. Para finalizar, destacamos a boa edição (de Anny Danché); a fotografia favorecida pelas belas paisagens (Laurent Tangy) e uma acentuada trilha sonora que acompanha as cenas, com destaque para as últimas músicas. Para os cinéfilos, A Farsa oferece algumas citações e homenagens a filmes clássicos. É curioso perceber também que entre os destaques apresentados da Riviera francesa – na costa do mar Mediterrâneo – não se dê destaque ao palácio que abriga o Festival Internacional de Cinema de Cannes, situado no boulevard Croisette. É um local bonito que a produção decidiu não mostrar e nos leva a pensar se não foi algo proposital, para não relacionar o enredo com esse símbolo do cinema. A Farsa, em síntese, filme com mistura de géneros, boas atuações e roteiro complexo. Obtêm uma nota razoável.

Por: Tomás Allen (Fonte: www.parsageeks.com.br)


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