Os Fabelmans

O que pode ser dito sobre ele que já não tenha sido falado? Estamos nos referindo a Steven Spielberg, diretor deste novo filme. Com uma fama internacional absoluta, já dirigiu 35 títulos, foi produtor de 48 e roteirista de 4; e recebeu quatro prêmios “Óscar” (dois como diretor, um como produtor e outro especial, pelo conjunto da obra). Sem contar as outras premiações de prestígio internacional (BAFTA, Globos de Ouro etc.) É o maior arrecadador da cinematografia (mais de 10 bilhões de dólares até 2018). Quem não o conhece? O leitor pode escolher seu título favorito da extensa lista – que não enumeramos aqui para evitar ser excessivamente detalhistas. Com esse currículo como introdução, podemos ir para esta última realização. Antes do início do filme mesmo, Spielberg encara a câmera e nos diz que o que virá é um relato sobre sua família e, também, sobre cinema. Os Fabelmans é isso: um trabalho cinematográfico construído sobre esses dois eixos. Podem-se dividir suas 2h31 de duração em duas partes: a primeira, onde a infância e adolescência constituem o núcleo narrativo, nostálgico e com toques engenhosamente cómicos e a segunda, onde os filmes e o cinema prevalecem envoltos numa ênfase dramática – ainda que ambas temáticas e perspectivas coexistam.

Peço ao leitor que me permita resumir a identificação que tive com muitos elementos que estiveram na infância de Spielberg – segundo o filme – e a minha e que transcorreram com pouca diferença de anos. O gosto e incentivo de sua família, especialmente a mãe, pelo cinema. Essa experiência de ir com os pais a ver os primeiros filmes na vida e que, por azar, foram bastante traumatizantes, mas que, ao mesmo tempo, aproximaram a criança ao cinema. Eu, já sozinho, pouco tempo depois, assistindo curtas-metragens em preto e branco (de Chaplin e outros cômicos) e anos mais tarde aos longas-metragens de faroeste e bélicos, consolidaram essa experiência vital. Porque, como diz a mãe (representada por Michelle Williams), “filmes são sonhos que você nunca esquece”. E como resume um cartaz publicitário, este é “O maior espetáculo da Terra”. Aparece também a atração pelos trens como brinquedos, no caso do protagonista com uma formação elétrica, no meu mais modesto, com deslocamento apenas mecânico, manual. Como o pai de Spielberg, o meu também fabricou brinquedos, só que em madeira. Talvez aí parem as coincidências, porém isso me criou uma forte identificação com este filme. O olhar nostálgico está garantido e resulta duplo: para o protagonista-diretor e para quem assiste. Será que com os outros espectadores acontecerá algo similar? Se fosse assim, o valor universal de Os Fabelmans aumentará.

Nessa altura, já na década de 1960, nossas histórias se separam e, aos poucos, o filme vai deixando para trás as piadas e a nostalgia para entrar na vida juvenil bastante conflituosa. Tanto no plano familiar como no pessoal, em confrontos com garotos intolerantes, sendo vítima de ‘bullying’ – aqui retornam as semelhanças com quem isto escreve. Também o vínculo com os filmes vai defrontar ao jovem (representado por Gabriel LaBelle) com escolhas muito angustiantes e decisivas: a família de algum modo, contra a condição de cineasta. (No meu caso, sou “apenas cinéfilo”, amante do cinema. Não fazedor de filmes. Aliás, vamos dizer que falar de filmes é, pelo geral, referir-se a um plano mais limitado, específico, e falar de cinema é fazê-lo apontando a uma dimensão mais ampla e até com uma concepção mais abstrata e próxima do artístico.) Comentamos antes que no âmbito familiar aparece um conflito muito sério, de difícil solução (se é que a tem). Conflito que se espalha por toda a família, com muita dor, com uma intensidade pouco menos que intolerável para todos. Por isso, nesta segunda parte de Os Fabelmans, o drama prevalece. Talvez para compensar, aparece o amor…

Steven Spielberg, diretor e co-roteirista, conhece o ser humano e sabe como explorar essas emoções e como filmá-las. Tony Kushner, é o outro roteirista – dramaturgo ganhador do Prêmio Pulitzer -. Sem dúvidas tem ajudado muito para conceber este filme, feito como pretende Spielberg, para ser visto só na telona das salas, junto a outras pessoas, compartilhando emoções. Houve já outras obras que contam o vínculo de crianças com o cinema. Por exemplo, no ano passado o inglês Kenneth Branagh ganhou o Óscar de roteiro original por “Belfast”. Tanto Branagh como Spielberg-Kushner, tiveram cronologicamente como antecedente a “Cinema Paradiso” (1988, G. Tornatore). Boas atuações e profissionais altamente gabaritados consagram um título muito bem concebido e realizado: a fotografia de Janusz Kaminski (53 longas, alguns nesta parceria), a edição de Sarah Broskar e Michael Kahn, e a música de John Williams (nesta oportunidade não tão brilhante, porém muito adequada) são pontos elevados. O filme se fecha com uma cena perfeita: a conversa – real, fictícia, pouco importa – entre o jovem cineasta Steven Spielberg com quem para mim é o maior nome do cinema de todos os tempos: John Ford. Interpretado de modo magnífico por David Lynch (quem melhor que ele?), é um momento inesquecível. Ao ponto tal que, como poucas vezes acontece nas salas, consegue aplausos. É um reconhecimento a esse mestre e, talvez, uma aula de linguagem cinematográfica. Ninguém melhor que John Ford para isso e, quiçá, poucos como Spielberg para representá-lo na tela. Um último detalhe está no derradeiro final – após todos os créditos e que pouquíssimos espectadores têm a paciência de assistir: está dedicado a Arnold. Nome do pai de Steven. Os Fabelmans é um filme que faz rir, sentir alguma nostalgia e, embora não faça chorar, traz emoções para a tela e a sala.

Por: Tomás Allen (Fonte: www.parsageeks.com.br)


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