Filme intimista que relata a vida deste famoso pintor e desenhista francês, por meio de uma fotografia muito bem elaborada (em cores e composição) pelo experiente Guillaume Schiffman e música que acompanha com propriedade (original de Michael Galasso e temas dos compositores clássicos Rachmaninoff e Debussy).
Pierre Bonnard viveu na França e a trama cinematográfica se inicia mostrando-o em Paris no ano de 1893. Tinha obras sobre a natureza e a figura feminina. Para estas últimas, necessitava modelos, e contrata Marthe. A partir dessa proximidade inicial, incluindo nus dela, o vínculo deriva em previsíveis relações sexuais. E avança ao longo de toda a trama mostrando diversas situações da mais diversa índole. Mas é evidente que ambos personagens provém de mundos cultural e economicamente bem diferentes: ele, com certa abundância, ainda que não excessiva, e ela, com pobreza e sérias limitações e dificuldades.
Na primeira metade, o ritmo resulta algo lento, sem produzir maior interesse. O caráter apenas descritivo, com figuras famosas da arte daquela época (finais do século XIX e inícios do XX), algumas das quais vão reaparecer depois, mais próximas a Bonnard. A maioria deles integravam o grupo chamado “Os Nabis” (‘os profetas’) que entrou na história da pintura por trazer propostas inovadoras.Todo esse ambiente oscila entre o excêntrico e o sofisticado, com um ar de boemia que o caracteriza e define.
Nos diálogos, há observações sobre a arte e o eventual significado da vida (por exemplo: “Não devemos apegar-nos às coisas”; esses artistas “são amantes do absoluto e da liberdade”). Depois, é mencionado um pedido muito especial de uma pessoa para quem era o objeto de seu amor: “Enterre-me”. A explicação e posterior uso desta expressão oriental, é dada a seguir e resulta bem motivadora. Paralelamente, nas pinturas e desenhos vão aparecendo a vida e a morte, a alegria e a frustração.
Na segunda metade do filme a fogosidade inicial entre Pierre (Vincent Macaigne) e Marthe (Cécile de France) vai dando lugar ao drama matrimonial e se agudiza. Embora tenha alcançado um pico positivo, superando mentiras, convenções e resistências, se agiganta a tensão entre a dedicação dele quase absoluta à pintura e as necessidades dela. E, definitivamente, o fator decisivo, para paixões e conflitos densos, vai ser a aparição de outra modelo, Renée (Stacy Martin).
O relato se instala, caminha e aprofunda na condição dramática. Em tal condição, passa a ser comovedor. Martin Provost, o diretor-roteirista, também se afianza em seu trabalho. Pela sua vez, no personagem Bonnard aparecem sentimentos de culpa, fracasso e desolação. As contradições e erros que os humanos cometem, às vezes, como neste caso, têm consequências imprevisíveis, terríveis. Os atos que derrubam outras pessoas e a si próprio, produzem essas derivações. Além disso, mais do que nunca, as obras de Bonnard passam a ser produtos de projeções de vivências e sentimentos. No geral, há uma sensação psicologicamente tortuosa, até angustiante, dolorosa, triste. A musa de Bonnard resulta ser um produto cinematográfico bem elaborado, para um público que goste de dramas románticos, com elementos artísticos tanto no descrito como na forma como é descrito.
Por: Tomás Allen (Fonte: www.parsageeks.com.br)
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