A Odisseia

Existem as mais diversas maneiras de assistir, desfrutar (ou rejeitar), analisar etc. este filme.

FICHA TÉCNICA

Título original: “The Odyssey”
País de origem e ano: Estados Unidos, 2026
Duração: 2 horas 53 minutos
[Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 14 anos] Gênero: Ação/Drama
Direção: Christopher Nolan

Roteiro: Christopher Nolan (adaptação para cinema) e Homero (poema épico original)
Elenco: Matt Damon (como Ulisses/Odisseu), Tom Holland (Telémaco), Anne Hathaway (Penélope), Robert Pattinson (Antinou), Lupita Nyong’o (Helena de Troia), Zendaya (Athena), Charlize Theron (Calypso), Samanta Morton (Circe), John Leguizamo (Eumaeus), Elliot Page (Sinon) e outros.
Fotografia: Hoyte van Hoytema
Edição: Jennifer Lame Música: Ludwig Göransson

Crédito da Imagem: Universal Pictures Brasil

Existem muitas maneiras de entender, desfrutar (ou rejeitar ?) e analisar esta obra de cinema. Uma delas é a que iniciará este texto: prestar atenção ao(s) roteirista(s). O diretor e roteirista do filme é o inglês Christopher Nolan. Este é seu 13° longa-metragem, após uma lista de títulos exitosos, alguns até muito bem realizados. Nolan toma como base o poema épico grego Odisseia, do século VIII a.C. 

O autor do mesmo foi, provavelmente, Homero – nome que reúne vários possíveis significados, um dos quais é “aquele que não vê”. Por isso, deve ter sido um cantor (‘aedo’) e tido escreventes. Isto pode não interessar demasiado para algumas abordagens deste título cinematográfico. Porém, pode ser relevante saber a importância da obra em que Nolan se apoiou. Porque Homero, com suas obras Ilíada e Odisseia, resulta um dos grandes marcos da cultura ocidental, pois representa a cristalização da escrita, após uma tradição oral muito anterior. Ou seja, abriu a porta para a narrativa literária ocidental. Inclusive nos temas. E isso último aparece nesta produção, no ano 2026.      

Impõe-se a questão de se um filme deve ser analisado por ele mesmo, sem outras considerações (incluindo desconsiderar, para estes fins, outros títulos anteriores sobre igual tema ou remakes). Isto fica mais manifesto naqueles que têm roteiro adaptado, como é o caso que temos aqui. Fazer uma análise dos diversos elementos que Nolan incorporou da obra de Homero, se foi fiel à mesma, seus personagens e situações, não vai ser o objetivo deste texto. Será concentrar-se no filme: sua trama, personagens e principais elementos constitutivos.

A narrativa apresenta ao espectador o retorno de Ulisses (Matt Damon) a Ítaca, sua terra natal, após participar da guerra de Tróia. Também mostra de que maneira ele destruiu a cidade inimiga: por meio de um ardil, fingindo dar um presente em forma de um gigantesco cavalo, no qual ficaram escondidos guerreiros que, depois, já dentro da cidade, saíram de su interior para aniquilar os adversários troianos. Desta forma, ganharam a guerra, mas traindo a regra ditada pelos deuses de respeito mútuo entre anfitriões e hóspedes, segundo se explica no próprio filme. 

O motivo da guerra foi a paixão por uma bela mulher: Helena (Lupita Nyong’o), rainha de Esparta, levada da Grécia à Tróia. O resgate dela, que estava casada com Menelao (Jon Bernthal), rei de Esparta, conduz à guerra e alastra a Ulisses. Após dez anos de luta infrutuosa, Ulisses cria uma armadilha: dar o mencionado cavalo aos troianos como se fosse um presente à deusa Atena (Zendaya). Como já dito, dentro dele aguardavam guerreiros que, uma vez ficarem próximos da cidade, a invadem e incendeiam.

Após a ignóbil vitória, Ulisses inicia o retorno à sua terra. Mas, no percurso se defronta com muitas tentações e perigos fabulosos: o monstruoso e gigantesco Ciclope (a quem derrota com enganos), a sedutora deusa Calypso (Charlize Theron), com a qual ficou sete anos, embora não sendo infiel a sua esposa Penélope (Anne Hathaway), a feiticeira Circe (Samanta Morton), uma passagem pelo Hades (reino dos Mortos), as sereias e seu canto mortalmente atrativo …

Até que, após dez anos de demora, consegue chegar a Ítaca, disfarçado de mendigo. Lá reencontra seu filho Telêmaco (Tom Holland), já adulto e herdeiro, e terá que lutar e derrotar os pretendentes que cobiçavam Penélope e queriam assassiná-lo. Ela, por amor e com esperança, havia tecido e, em segredo, desfeito um telar, evitando cumprir com a promessa de casar-se com outro homem. Ela, então, percebe que o recém-chegado é seu marido disfarçado e precisa definir a situação, recorrendo a um teste que só o verdadeiro rei poderia resolver… 

O filme tem cerca de três horas de duração, com uma tecnologia extremamente elaborada. Trata-se da primeira filmagem totalmente realizada no sistema IMAX (Image Maximum) e, por suas características, deve ser exibida em salas apropriadas. Isto permite uma excelente resolução, tamanho de tela gigante, cores e som otimizados (embora por momentos este último seja excessivamente forte). Como resultado, o espectador fica envolvido em uma exibição especial.  

Contudo, o filme em si, embora tenha todas essas características tecnológicas, tem acertos e debilidades narrativas. É fácil de assistir, mas não chega a ser emocionante e comovente. 

Fotografia (Hoyte van Hoytena), Edição (Jennifer Lame), música (Ludwig Göransson) e demais departamentos técnicos resultam competentes mas, em outro ordem de assuntos, a obra transmite melhor o gigantismo que o sentido do mito. 

Resumindo: é uma história de heroicidade e, também, de permanentes traições e certa brutalidade, marcada por “dor, sangue e morte” — como diz um dos personagens. Trata-se, igualmente, de amor e persistência. A jornada de Ulisses pode representar cada um de nós, pois provavelmente todos desejamos ser astutos, realizar o que os outros não conseguiram. Superar problemas na vida, reconquistar o perdido e controlar o destino (hábeis em astúcia e artimanhas, em especial quando nos falta força física). Mas, como vimos, é improvável que o descomunal espetáculo de A Odisseia de Nolan nos atinja de forma profunda. Ainda assim, resta uma certeza: na sequência final, nos olhos com lágrimas da Penélope de Anne Hathaway, o espectador encontrará o espelho de sua própria e derradeira emoção. 

Por: Tomás Allen

Filme assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Universal Pictures Brasil.

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