O filme se ocupa de Patria y Libertad, organização política ultranacionalista chilena, que nos anos de 1971 a 1973 atuou de diversas formas, algumas decididamente violentas, contra o governo de Salvador Allende e seus simpatizantes. Diga-se de passagem: aquela condição ideológica não impediu a esse grupo de ter integrantes estrangeiros e respaldo financeiro para bancar suas atividades. Como mínimo, porque paira também a sensação de que as táticas utilizadas (por exemplo, o incentivo econômico em dólares aos caminhoneiros grevistas) estavam desenhadas em outras instâncias e até latitudes.
O diretor Andrés Wood tem uma posição favorável à esquerda e seus títulos anteriores assim o caracterizam. Por exemplo: “Machuca” (2004) e “Violeta Vai Para o Céu” (2011). O primeiro (que pôde ser assistido no Brasil pouco tempo após sua estreia) criticando as atitudes elitistas da classe rica e poderosa do país; e o segundo, sobre a famosa cantora Violeta Parra, de nítida posição rebelde – ou revolucionária, conforme se prefira definir. Nesta ocasião, Wood se ocupa de duas épocas da história de Chile e, em particular, de Inés, a protagonista do filme. Primeiro, como militante da citada agrupação, sendo ela jovem. Depois, como uma profissional de alto nível de vida. A edição mistura esses períodos em modo compreensível, sem maiores complicações. No início da exibição, para enlaçar ambas etapas lhe basta uma fotografia e a imagem de uma mulher; só com esses elementos quem assiste percebe de imediato o pulo na vida da protagonista, desde sua condição madura mais recente para sua anterior juventude. Porém, embora a ideologia de fundo continue a ser a mesma, nela há um relativo amadurecimento, não totalmente explicado posteriormente ou que possa ser assimilado pelo espectador.
Os diversos momentos retratados na época dos anos 1970 descrevem um país convulsionado e drasticamente dividido. Para isso, o filme evolui desde um eloquente, porém simples, contraste de imagens de jogos de crianças pobres-ricas até uma mais elaborada polarização social e cultural. Ao longo do relato, mostra enfrentamentos violentos e atitudes muito agressivas e que, de modo proposital, podem produzir inquietação no espectador. Também o perfil psicológico dos jovens que integram Patria y Libertad não é dos mais equilibrados… Incluindo a própria Inés. Sua forte personalidade, sua decisão política e pessoal não chega a ser elogiada, mas é como um caminhar pela corda-bamba, que o diretor e seu co-roteirista (Guillermo Calderón) escolheram. Por outra parte, surge a inevitável pergunta de quanto há de coincidente entre o produto cinematográfico e o acontecido historicamente. Questão também sem resposta clara, pois é difícil reconstruir com total exatidão o passado. Aliás, é até irrelevante para o cinema de ficção. Inclusive, pode-se entender que o cinema sempre é uma ficção.
Com relação aos itens técnicos, merece ser elogiada a música original, de Antonio Pinto. Um detalhe negativo é que alguns diálogos resultam incompreensíveis auditivamente, mesmo para quem conhece bem o espanhol e a forma chilena de falar. Um dos pontos mais fortes de Aranha está nas atuações: um vasto elenco cumpre muito bem com cada um dos papéis para os que foram escalados. Uma dezena de nomes tem essa tarefa, de forma idônea. Devemos destacar a atriz espanhola María Valverde (a Inés jovem) e os chilenos María Gracia Omegna (Dra. Nádia, terapeuta que tem a difícil tarefa de fazer a avaliação psicológica de um dos antigos integrantes do grupo) e o experiente ator Jaime Vadell (aqui, dando o “physique du role” exato, como um diretor profissional, astuto, sábio e maldoso). Também estão corretos Gabriel Urzúa (como um perigoso jovem desequilibrado) e Marcelo Alonso (outro psicopata). Parágrafo à parte para Mercedes Morán, conhecida atriz argentina. Sua tarefa é excelente. Com momentos muito elaborados, gestos cuidadosamente pensados e executados diante da câmera. Aquela rejeição que podem provocar as atitudes e ações de Patria y Libertad, com Morán – a já madura e bem-sucedida Inés – chega a um ponto maior ainda. Ao mesmo tempo, essa atuação produz admiração. Isso em vários momentos e, muito especialmente, na cena final do filme, onde texto e representação estão perfeitamente vinculados. Lá, nessa cena final e, em particular, no último gesto, resumem-se o pretenso – e, também, autêntico – bom gosto cultural e, em modo simultâneo, seu cinismo e desprezo de “os que mandam”, uma classe que se sente superior e que tem imposto tal índole a sangue e fogo, contra os marginais, pobres, oprimidos ou como queiram ser chamados. Aranha é um título próprio destas últimas décadas do cinema chileno, contra o militarismo golpista desse país e a classe social que representou. Está bem concebido e realizado, e tem atuações que o consolidam.
Por: Tomás Allen (Fonte: www.parsageeks.com.br)
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