“O que é isso? É um verdadeiro caos.”

Com identidade simples e acessível, as creepypastas conquistaram um público fiel nos lugares em que são compartilhadas – como, por exemplo, o fórum 4chan, palco para a viralização das lendas de terror conhecidas como “Backrooms”.

Em 2022, Kane Parsons (que agora dirige a adaptação cinematográfica baseada na desconfortável proposta virtual), a partir de uma imagem compartilhada na rede em 2019, criou uma websérie sobre os misteriosos ambientes.

Após mais de 70 milhões de visualizações, o assunto chega às telonas com a missão de oferecer um resultado que satisfaça os fãs prévios e conquiste aqueles que, assim como eu, nunca tinham ouvido falar sobre tal conteúdo.

Através do roteiro de “Backrooms: Um Não-Lugar” (Backrooms), escrito por Will Soodik, somos apresentados a Clark (Chiweter Ejiofor), arquiteto frustrado por não ter seguido carreira, que enfrenta problemas de ordem pessoal (devido ao recente divórcio e aos problemas com álcool) e profissional – uma vez que a loja de móveis da qual é dono, está à beira da falência.

A solidão que pesa sobre seus ombros é parcialmente aplacada durante as sessões com sua psiquiatra / terapeuta, Drª Mary Klyne (Renate Reinsve). Mas, a verdade é que, por trás de uma fachada equilibrada, ela também carrega seus próprios traumas de infância, que comprometem sua rotina de profissional apta a cuidar do equilíbrio emocional alheio.

Passada em 1990 (o que justifica determinadas cenas obtidas com uma filmadora da época), a narrativa tem como cenário principal, o interior da desolada “Império Otomano do Capitão Clark”, com seu amplo espaço ocupado escassamente por peças de mobiliário de qualidade duvidosa.

A constante falta de clientes (que não se importam com as promoções amplamente divulgadas em comerciais de TV), aliada a uma espécie de torpor – que impede o protagonista de aceitar sua derrocada – são os aborrecimentos que ocorrem à vista de todos.

Mas, e se houver algo ainda mais complexo, acontecendo simultaneamente às margens do mundo “real” que conhecemos, cuja explicação não obedece a nenhum fundamento lógico? É o que Clark constatará, de maneira repentina e irrevogável.

Durante uma madrugada qualquer – na qual ainda está na loja, por não ter onde morar, após a separação – ele percebe que há algo de errado, graças à intermitência das luzes do estabelecimento. Mas nada seria capaz de prepará-lo para sua descoberta.

Uma das paredes do piso inferior revela-se uma passagem para uma espécie de dimensão paralela, formada por recintos que, de alguma forma, emulam parcial e defeituosamente, a realidade através de corredores de aparência infinita, dominados pela cor amarela e iluminados por lâmpadas fluorescentes.

Descrever o quanto tais espaços – criados de forma prática para o longa – causam incômodo é tão difícil quanto entender do que se tratam. E talvez seja isso que faz de “Backrooms: Um Não-Lugar” uma obra tão singular e impactante. Porque, muitas vezes, o que não compreendemos é o que mais nos assusta, já que não sabemos como combater tais aflições.

O grande acerto do filme está, justamente, no fato de saber  – pelo menos na maior parte do tempo – quando parar com a intenção de explicar o que não precisa (nem deve) ser esclarecido. A sensação de perda (literal e metafórica) proporcionada pelos ambientes é quase dolorosa de acompanhar – ainda mais se vista sob a perspectiva do tão necessário debate sobre saúde mental e seus desdobramentos.

A inquietação é amplificada graças à decisão de ter longas sequências sem nenhum diálogo, regadas apenas à trilha sonora propositalmente repetitiva e inquietante de Kane Parsons e Edo Van Breemen. O que significa que, nem sempre é necessário escorar-se em sustos fáceis, mesmo que isso faça com que haja certa (mas perdoada) lentidão no andamento da história.

Vale conferir.


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