Doce Entardecer na Toscana

Não é muito habitual em São Paulo assistir a um filme polonês, salvo na Mostra Internacional do Cinema e algumas outras, específicas. Nesta ocasião, mais exatamente, uma coprodução ítalo-polonesa. Quando isso acontece, o público provavelmente vai com uma perspectiva de algo diferente. Por tanto, com Doce Entardecer na Toscana dá-se a oportunidade de estar diante de uma realização com diretor-roteirista polonês (Jacek Borcuch), pessoal técnico em maioria dessa nacionalidade e atores e atrizes também italianos e, sobretudo, poloneses.  A mais experiente é Krystyna Jandia, de 67 anos de idade e 48 longa-metragens, o que se faz evidente em sua sóbria atuação como Maria Linde, a protagonista, uma escritora da Polônia, que mora na Itália e ganha o Prêmio Nobel de Literatura. (Uma nota paralela é que em 2019, mesmo ano desta produção, a escritora e roteirista polonesa Olga Tokarczuk, residente na Alemanha, ganhou efetivamente esse prêmio).

Maria Linde rejeita o prêmio em meio a fortes comoções sociais e políticas do lugar em que mora na Itália e produz mais discussões, polêmicas e resistências a sua atitude. Ela está em uma posição social e econômica bem abastada, mas também, tem um amante estrangeiro que sofre perseguições e preconceito. Jandia dá força à complexidade da personagem.  Com o prêmio também virão a fama, as implícitas pressões políticas e até questões financeiras. Sua vida íntima, suas dúvidas pessoais e existenciais se tornam prementes e mais agudas: “Não tenho certeza de nada” – disse. Embora Doce Entardecer na Toscana tenha um ritmo que agradará preferencialmente aos que procuram reflexão e conflitos pessoais e políticos, em contraste não será tão atrativo para o público que busca um tipo de ação mais habitual no cinema de massa. Aqui há rebeliões menores diante das regras e autoridades (fumar em local onde é proibido, conduzir com excesso de velocidade e eludindo controle policial). Mas também há posições políticas de fundo e citações muito interessantes, por exemplo o que diz a protagonista sobre atitudes que consagram, consolidam, aos violentos no poder: “Em alguns é tão forte o medo ao outro que isso leva até a perder a própria liberdade”.

Em rigor, já desde o início Doce Entardecer na Toscana, tem um estilo narrativo que parte de assuntos triviais para chegar a elementos dramáticos – do sumiço que parece ocasional de um menino até derivar em um tom dramático. Assim, com diversas outras situações, mas com esse jeito, o relato avança até chegar a uma cena final, precisa e ao mesmo tempo aberta e ambigua. Magnífica desde o ponto de vista da linguagem cinematográfica porque o deslocamento em modo de traveling onde a câmera se vai distanciando do objeto central, é isso: puro cinema, para o espectador curtir e – eventualmente – discutir, com outro ou consigo mesmo. Desta maneira, estamos diante de um produto incomum, com estilo e ritmo bastante especiais, e um final muito bem construído. Talvez Jacek Borcuch possa caminhar daqui em diante na direção dos bons diretores poloneses, figuras do cinema mundial, entre os quais merecem ser citados Andrzej Żuławski – com as impactantes “A Terça Parte da Noite” (1971) e “Uma Mulher Posuída” (1981)-, Jerzy Kawalerowicz – com sua extraordinária “Faraó” (1966)- , Krzysztof Kieślowski, o mais recente e famoso Roman Polanski e vários outros. Doce Entardecer na Toscana é um filme ítalo-polonês, com material e ritmo incomuns e um final que é cinema absoluto.

Por: Tomás Allen


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *