Estranha Forma de Vida

Pedro Almodóvar chegou às telas de cinema do Brasil com este último trabalho, que traz algumas características diferentes da sua filmografia anterior. E, claro, algumas outras, típicas deste diretor. Isso deve ser percebido principalmente pelo público de massa. A saber: surpreende o fato de não ser um longa-metragem e sim um média-metragem com 31 minutos de duração. Embora ele já tenha dirigido 17 curtas-metragens (entre eles, “La Voz Humana” , de 2020), pelo geral é conhecido por títulos com duração maior.   

Esta é a história de Silva (o ator chileno Pedro Pascal) e Jake (o estadunidense Ethan Hawke), dois vaqueiros que são amigos no oeste dos Estados Unidos da América, na época dos inícios da chamada conquista. Aqueles que foram amigos se reencontram agora, depois de 25 anos de ausência. Por tanto, este é outro aspecto desconhecido em Almodóvar: a produção se enquadra no gênero do faroeste. 

Já desde as primeiras imagens Estranha forma de vida vai reproduzindo e recriando a tradição desse tipo de filmes. Paisagens agrestes, construções em madeira, roupas típicas, indivíduos que montam a cavalo, portam armas, são marginais (Silva) ou autoridade policial (Jake, um xerife). Há amizade masculina e confrontos violentos que às vezes derivam em mortes. Talvez excetuando esse último elemento, resulta muito prazeroso para o espectador que conhece e curte tal gênero porque, especialmente nos maiores de idade, pode produzir saudades de alguns excelentes títulos, de grandes diretores, clássicos do cinema estadunidense e universal. 

Aliás, para alguns historiadores do cinema, o “western” (faroeste, em portugués) é quem inicia o agrupamento de filmes, cada um dos quais tem suas características, suas regras, seus objetivos. Os espectadores de dramas, de comédias, de musicais, de horror, etc. esperam que os personagens tenham determinados perfis e comportamentos justamente segundo os códigos prefixados. Até os finais podem ser aqueles previamente definidos. O faroeste, então, é algo assim como o “gênero dos gêneros”. 

Esta forma de expressão seria uma homenagem que Almodóvar faz àquele cinema.  Porque uma das primeiras tomadas é um plano próximo do rosto de Silva/Pascal que evoca a Charles Bronson, o famoso ator francês com trabalhos nesta linha. Aliás, tem um “que” que faz lembrar os inovadores planos utilizados na década dos anos 60, pelo italiano Sergio Leone em seus “western spaghetti” – uma variante europeia destas realizações. Também parece procurar um eco do cinema em geral.

Assim, Silva e Jake vão-se encontrar de novo, agora já não com os mesmos objetivos que antes, em especial porque o segundo é uma autoridade oficial. E o encontro permite reviver uma antiga relação homossexual. Caubóis homossexuais parece ser um terceiro fator novedoso que Almodóvar traz ao faroeste. Sem esquecer que Ang Lee em 2005 já apresentou um vínculo assim em “Brokeback Mountain”, porém ambientado em uma época mais recente. Estranha forma de vida, como título, seria um sinônimo de queer, palavra utilizada hoje, justamente como “modo diferente de viver”. Poderia ser uma antecipação do que vai ser o filme.  

Mas, não é só de elogios ou saudades que se nutre esta realização. É possível detectar alguns contra-símbolos. Por exemplo: pelo geral em fotografia e em especial em publicidade, quando há um relógio analógico, as agulhas indicam as 10:10. O intuito principal seria procurar harmonia, simetria. Causar uma boa impressão para que o produto, a marca, seja ligada  inconscientemente pelo público a essas características. Em Estranha forma de vida aparece um relógio que marca as… 05:05. 

Deste modo Almodóvar em modo evidente e, ao mesmo tempo sutil, marca que não percorre caminhos habituais. (Pode estar aí também a mão de Luis Alcaine, diretor de fotografia, com quem já realizaram trabalhos conjuntos em vários dos mais conhecidos títulos).  É como se afirmasse: “eu sou diferente, tenho uma forma de vida estranha.” Outra forma – desta vez, falada – de evidenciar o anterior é quando se diz: “(Há) pessoas que vivem dando as costas a seus desejos.” Justamente o título do filme é tomado do melancólico fado português, de Amália Rodrigues, que inicia a projeção: “Estranha forma de vida”. 

Continuando com Silva e Jake: ao se reencontrar, lembram o passado em uma extensa conversa. Porém, há mudanças. Entre ambos, agora se interpõe um terceiro personagem: o filho descarriado de Silva. Em tal sentido, Jake tinha feito um juramento que agora pretende cumprir para respeitar seu próprio honor. E isto os irá enfrentar. 

Esse papel, central do honor dentro do carácter dramático de Estranha forma de vida, faz lembrar “Os Imperdoáveis”, aquela magnífica obra de 1992, de Clint Eastwood. E os elementos violentos que se apresentarão aqui inevitavelmente, também revivem as obras de Sam Peckinpah, embora não cheguem àqueles extremos. 

         O relato vai concluir em modo poético este média-metragem, muito bem feito. Porém, quiçá por isso mesmo fica um sabor de incompletude. Pode-se pensar e até desejar que tivesse sido uma longa-metragem. Materiais não lhe faltariam porque poderiam ter sido relatados em imagens os antecedentes do reencontro dos personagens principais e, dessa maneira, superar o excesso de palavras – ruim em cinema. Também, prosseguir com o que poderia ter acontecido depois. Almodóvar, sem dúvidas, sabe os motivos. Por um lado, o espectador pode respeitar a decisão e, por outro, lamentá-la. 

Por: Tomás Allen (Fonte: www.expressãoonline.com.br)


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