Nicoline (Carice van Houten), é uma jovem profissional que após fazer um estágio bastante desapontador em uma instituição psiquiátrica decide trabalhar, ainda que transitoriamente, na condição de psicóloga, acompanhando um caso penal. Ela passa a ser responsável de observar o perfil e a conduta de Idris (Marwan Kenzari), que está próximo a sair em liberdade, após anos de tratamento. É um estuprador, com “recorrentes crimes sexuais muito violentos”, segundo a ficha clínica. Trata-se de um psicopata (nome popular e que nos manuais de psiquiatria se conhece como transtorno da personalidade antissocial. Essa denominação estrita não aparece no filme, o que no fundo não é importante porque um produto fílmico de caráter comercial não é um texto científico). Ele carece de empatia, isto é: não tem sentimentos ou emoções positivas autênticas e não se identifica nem compadece com as outras pessoas. Nem tem remorsos por seus atos destrutivos.
O nexo entre os dois personagens é de grande tensão porque cada um parece querer prevalecer sobre o outro. Aliás, procura controlar a situação diante de um indivíduo que ela sabe é extremamente perigoso. A índole manipuladora de Idris está muito bem apresentada nas falas, por momentos envolventes e em outros, impositivas. Em especial, a proximidade crescente entre ambos vai minando a autoridade da terapeuta. Em rigor, a perda de controle é sobre ela mesma. Suas debilidades começam a manifestar-se em grau alarmante. A psicologia em geral e a patológica em particular ensinam que se as necessidades e seus impulsos instintivos se defrontam com a vontade, com o raciocínio da pessoa, isso dá lugar a um conflito. Nesta ficção, na protagonista está presente essa dura batalha interior. Outra linha paralela no relato vai mostrando um tipo de relacionamento excessivamente carinhoso entre Nicoline e sua mãe – o pai não aparece. Por outra parte, Idris vai evidenciando uma personalidade profundamente transtornada, porém bastante contida e alternando momentos de aparente “normalidade” com outros, decididamente suspeitos. Ele também teve ao menos um progenitor problemático: o pai já foi um estuprador violento. Os símbolos psicológicos que vão aparecendo podem ser muito reveladores: um coelho, a posição física ao dormir (tipo fetal), um espelho fragmentado etc. O papel dos colegas que analisam o caso Idris e as decisões da diretora-supervisora (Ariane Schluter) revelam sérias contradições e limitações para lidar com um caso tão sério e ameaçador. O que já era evidente de antemão.
A tensão cresce e todas essas falhas se acumulam dando lugar a um percurso angustiante. Há algumas cenas decididamente carregadas e muito bem realizadas. Pelo geral são aquelas que contém algum tipo de violência, em particular sexual. Halina Reijn soube dirigir este filme, com muita competência, embora seja debutante em tal condição e só tendo antecedentes no teatro. A atuação de Carice van Houten, atriz com vasta experiência e muito famosa em Europa, é excelente. As cenas de entrevistas com o internado e, em especial, os encontros próximos com ele, resultam marcantes. Foi bem acompanhada por Marwan Kenzani.. Ariane Schluter também tem uma tarefa muito boa, à altura de seu amplo currículo. Sobressalente, também, a fotografia de Jasper Wolf. O longa traz muita perturbação ao apresentar uma relação entre uma mulher jovem, bonita, com uma profissão universitária, e um psicopata. E nos leva a perguntar, ao igual que em diversas ocasiões da vida: o que faz uma mulher assim se aproximar, apaixonar-se e aceitar um vínculo de tal índole? Ainda mais neste caso, sendo uma profissional da área psicológica, que sabe perfeitamente das características de tais indivíduos, do risco que implicam e da condição de improvável ou impossível mudança. Que leva a muitos humanos a assumir relações nocivas, tóxicas, que não tem nem perspectivas de melhoramentos? O instinto? No início se explica que “as espécies [animais] se atacam entre si” e que “a vida é um risco”. Tudo isso vai se concretizando duramente. Tudo isso se vai concretizar duramente ao longo do filme. Também inúmeros paradoxos como, por exemplo, que a protagonista queira viajar (algo assim como ser livre) e, sem embargo, fique dentro de um lugar problemático e perigoso. E outras lutas internas, como já dito. Instinto é uma obra dramática extremamente interessante para aqueles que gostam de conflitos psicológico, psiquiátricos.
Por: Tomás Allen (Fonte: www.parsageeks.com.br)
Deixe um comentário