Há um acerto inicial já no título: “Pressão” pode aludir tanto à pressão atmosférica no Dia-D, em que os aliados invadiriam o continente europeu, quanto à pressão psicológica e militar para não fracassar nessa operação.

FICHA TÉCNICA
Título original: “Pressure”
País de origem e ano: Estados Unidos-Grã-Bretanha, 2026
Duração: 1 hora 40 minutos
[Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 14 anos] Gênero: Drama
Direção: Anthony Maras
Roteiro: Anthony Maras e David Haig
Elenco: Brad Pitt (como James Belmont), J.K. Simmons e Anna Lambe.
Fotografia: Mauro Fiore
Edição: Dodu Dorn
Música: Jared Michael Fry
Crédito da imagem: Paramount Pictures
Na história do cinema ocidental há títulos que se ocuparam do chamado “Dia D”, aquele em que, na Segunda Guerra Mundial, as forças militares dos Estados Unidos e Grã-Bretanha invadiram a França, para derrotar os nazistas alemães. Entre os mais conhecidos estão “D-Day the Sixth of June” (anglo-norte-americano, 1956) e “The Longest Day” (coprodução internacional, 1962), ambos com elenco repleto de nomes famosos e produção dispendiosa. Também, com dramatismo e, com a espionagem associada ao Dia D, “Eye of the Needle” (EUA., 1981).
Porém, este atual, Pressão, abordando esse dia, tem características especiais, que o levam a um nível muito elevado. A seguir, procuraremos justificar essa afirmação. Isto, ainda tendo em consideração que a peça original de David Haig é teatral, o que poderia constituir um risco: em lugar de fazer um filme com linguagem apropriada, fazer “teatro filmado”. Longe disso, esta é uma obra cinematográfica. Há alternância entre planos próximos e longos, ambientes fechados e abertos, incluindo imagens do mar e das operações militares, deslocamento dos personagens e acompanhamento musical muito dinâmico, entre outros recursos.
Pressão se inicia advertindo que esta é uma “história real” e a situa em junho de 1944. As imagens mostram militares abatidos em uma praia, com a água do mar tingida de sangue. A explicação é que se tratou de um ensaio das forças aliadas do que seria o Dia D. Um desastre, como se viu. Depois ficará claro que o responsável foi o general estadunidense Eisenhower (Brendan Fraser).
O relato avança seis semanas, para chegar às 72 horas que antecederam o Dia D.- E a edição alterna essas cenas de morte com uma situação romântica, protagonizada por um casal britânico na sua casa, na Inglaterra. A mulher é Liz Stagg (Tamsin Topolski), grávida, e o homem, James Stagg (Andrew Scott), militar e meteorologista.
O filme o apresenta como alguém chamado em caráter urgente pelo comando das forças que estão prestes a invadir o continente europeu, com uma grande mobilização de homens (e mulheres) e máquinas bélicas.
Chegando fisicamente ao local onde está esse comando, Stagg mostra outra faceta sua: enérgico e concentrado, de acordo com a importância do que se está planejando e executando. Profundo conhecedor, vai dando ordens para ter um panorama climático abrangente do Hemisfério Norte. Por sua vez, Eisenhower também se confrontará com sua culpa pelo acontecido no ensaio e, em especial, com os outros chefes militares (do exército, a marinha e a aviação).
As situações vão acentuando sua condição dramática, na medida em que se aproxima o 5 de junho, que foi definido previamente como o dia da invasão, e as condições atmosféricas, segundo Stagg, geralmente são imprevisíveis na Normandia, o local escolhido.
Mais ainda: para Stagg resulta impossível prever com certeza e suficiente antecedência se choverá forte nesse dia e local, especialmente em uma região como é o Norte da Europa. Aliás, ele diz que “O clima não repete sua história”; e que “As condições atmosféricas nunca são idênticas”.
Outros personagens vão assumindo maior importância na trama: Kay Summersby (Kerry Condon), como a muito eficaz secretária e Irving Krick (Chris Messina), outro meteorologista, com critérios e avaliações diferentes dos de Stagg. Caberá a Eisenhower tomar rumo e decisões extremamente difíceis.
A esta altura, o filme resulta poderoso, dinâmico e potente. A “mise em scène” (a organização dos elementos diante da câmera: espaço, cenografia, iluminação, figurino, atores, movimentação) é ótima. Conjugam-se para isso, a fotografia (Jamie Ramsay), a música (Volker Bertelmann) e, especialmente, as atuações dos experientes Andrew Scott (em seu 30º longa-metragem) e Brendan Fraser (55º).
Em uma segunda linha de excelências se anotam os já mencionados Kerry Condon, Chris Messina e Tamsin Topolski. Sem esquecer-se daqueles que representam os comandos das forças militares atuantes.
Para alcançar tudo isso, há méritos em geral, como obra cinematográfica, e também em particular, no figurino de atores e atrizes, no trabalho de técnicos específicos e em departamentos diversos. O diretor Anthony Maras (em seu apenas segundo longa-metragem, mas aqui também corroteirista e editor), soube conduzi-los e contou, também, com excelentes profissionais.
Pressão apresenta uma sequência com elementos religiosos: a guerra é apresentada como serviço ao país e a Deus, acreditando na promessa da vida eterna. Além disso, oferece diálogos e reflexões muito afiados, fortes e penetrantes. Por exemplo, “(para ganhar a guerra) é importante enganar o inimigo”; “a vida se nutre de pressentimentos”; “escolhemos aquilo que queremos”. E há como uma advertência: querer acreditar não deve levar a confundir-se com o que efetivamente acontece.
Também a realização pode produzir emoção, inclusive nas oscilações da trama, que acompanham as incertezas do momento climático, decisivo e insondável.
Só dois elementos podem tirar uma parte do que seria perfeição: um final previsível (esse sim) e um tanto melodramático. E, em especial, uma postura propagandística que leva a dizer que com o Dia D “o mundo ficou livre”, derrotando os nazistas, simplificando uma guerra muito mais ampla. Foi, sobretudo, o Exército soviético, na frente oriental, que destruiu a maior parte das forças militares alemãs e chegou a Berlim, onde a bandeira soviética seria hasteada sobre o Reichstag.
O Dia D foi decisivo, mas não foi “a” vitória sobre o nazismo. O desembarco aliado ajudou e modificou parte do percurso histórico e trouxe consequências, mas o propagandismo dos filmes anglo-norte-americanos não faz jus à história real que, neste caso, pretende sublinhar.
Excelente produção, mais dramática que bélica, com muitos elementos elogiáveis.
Por: Tomás Allen
(Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Universal Pictures)
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