Filme intenso, con momentos alucinantes. De alto voltaje, com reviravoltas e um protagonista com características violentas mas, também, muita nobreza.

FICHA TÉCNICA
Título original: “The Running Man”
País de origem e ano: Estados Unidos, 2025
Duração: 2 horas 13 minutos
[Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 16 anos] Gênero: Ação / Fição Científica
Direção: Edgar Wright
Roteiro: Stephen King (romance), Michael Bacall e Edgar Wright
Elenco: Glen Powell, Emilia Jones, Josh Brolin, Colman Domingo e elenco.
Fotografia: Chung-hoon Chung
Edição: Paul Machliss
Música: Steven Price
Crédito da imagem: Paramount Pictures
Ben Richards (Glen Powell) tem uma família constituida pela esposa e uma filha pequena. Esta última é vítima de uma doença que pode ser tratada com medicamentos adequados. Porém, o problema fica complexo porque eles não têm dinheiro para comprá-los.
Ele tinha encabeçado uma rebelião para reivindicar melhores condições de trabalho em uma empresa que explorava os funcionários. Por essa causa foi demitido e, no momento da primeira cena do filme, procura ser reempregado para conseguir ingressos econômicos, sobretudo para esses remédios.
Como seu pedido não é aceito, a situação fica desesperadora. Mas ele vê a publicidade de um programa televisivo que oferece dinheiro imediato e gradual a quem aceite participar, sobrevivendo durante um máximo de 30 dias, aos ataques impiedosos de cinco caçadores implacáveis.
Percebendo sua intenção de apresentar-se nesse programa, a mulher fica aflita e lhe adverte que lá ninguém sai com vida. Contudo, ele teima em ir e se inscreve, superando a dura prova prévia, por ser um indivíduo agressivo, violento, encaixando-se exatamente no que a produção do programa procurava. Assim, inicia seu caminho para obter o dinheiro necessário. Seu objetivo é preciso, sua força mental e física é grande e a luta será cruel, sem retorno.
A trama, baseada no romance de Stephen King, consagrado autor de obras de terror, acompanha o percurso de Ben Richards ao longo dos dias. Há regras rígidas estabelecidas por Dan Killian (Josh Brolin), o diretor televisivo, que tem o perfil próprio de um psicopata (nos créditos finais aparece a menção do assessoramento psicológico que tiveram os realizadores da obra cinematográfica, como é de praxe nas grandes produções e segundo as demandas de cada título). E que, em caso que precise, também mudaria ou descartaria tais regras.
A corrida torna-se cada vez mais sanguenta e, paralelamente, o dinheiro que Richards vai ganhando aumenta cada dia e a cada circunstância. Há um apresentador, Bobby Thompson (Colman Domingo), adequado ao caráter perverso da produção, cumplice de mentiras aleivosas e com um vínculo pouco menos que sinistro com a produção e, simultaneamente, também com o público que está no estúdio da emisora.
A sede morbida que os caçadores matem os participantes se concretiza contra os outros dois que estão na disputa dessa turma. Porém, Richards se destaca. O fato dele continuar vivo exalta os ánimos, o clima sobe de tom e as trapaças se acentuam. A figura de Dan Killian ganha primeiros planos na tela.
O público também mostra um perfil carente de empatia, pois goza da desgraça dos outros. Contudo, quase que paradoxalmente, pode até mudar seu enfoque. O drama ultrapassa o marco inicial e abrange amplos setores públicos. Richards vai ficando famoso.
Com pouquisimas excepções, em O Sobrevivente quase ninguém é saudável emocionalmente e a violência se apropria assustadoramente, já que no início tinha alguns elementos irónicos, ingeniosos, até risíveis, mas isso é deslocado, ganhando tons muito escuros.
A cidade, embora moderna e as moradias, permanentes ou transitórias, aparecem na mesma faixa desastrosa, que sublinha vidas e situações caóticas, sem controle e situações com pouca margem para algo mais positivo. Violência e indiferênça dão-se as mãos.
Há algumas observações que chamam a refletir, como: “Não é a morte que se deve temer, mas o não ter vivido”. “Este (pelo programa) é o novo Coliseu”. “Se mata um homem mas não a ideia”. Killiam lhe diz a Richards: – “Você só quer voltar para ficar com sua família. Porém, o mundo está por explodir. E você é o detonador”. — Richards lhe responde: – “Se podem salvar as duas coisas”.
O relato em toda a primeira parte resulta muito interessante, porém, depois se alastra. Finalmente se afunila e as sequências finais por um lado podem resultar ou parecer previsíveis e até convencionais e, por outro, interessantes. Porque há uma denúncia contra a injustiça social e a credibilidade superficial, alienante, de alguns programas da TV.
Há uma abordagem que resulta enriquecedora ao repensar O Sobrevivente. Trata-se de conceitos de psicologia criados por Sigmund Freud, na sua corrente chamada psicanálise. Ele dizia que no ser humano coexistem um instinto de vida e outro, de morte. O primeiro se manifesta de muitas formas: a mulher que quer ter filhos, o cuidado que pessoas mais novas tem de idosos, doentes etc. Também a defesa que se faz da própria vida. O segundo, ao ser atraidos por acidentes graves, cadáveres, alegrar-se com desgraças alheias etc.
No caso deste filme quase tudo se vincula com o instinto de morte: o programa em si mesmo, o diretor, o apresentador, os caçadores, o público desejando o assassinato dos participantes, a maioria dos que assistem pela televisão.
O protagonista não escapa dessa tendência pois é um indivíduo extremamente violento, que vai-se defender matando se for necessário. Porém, tem um motivo supremo que o norteia: salvar a vida de sua pequena filha. Para isso assume um risco máximo, lidando com um esquema e adversários perigossísimos. Assi, encarna o instinto de vida. E é isso o que da o marco maior a todo o filme.
Também está a perspectiva histórica e social. Desde a antiguidade existe a crueldade e morte como espetáculo. Se podem lembrar aos que iam a ver as crucificações dos condenados. Ou os rituais de enforcamento na Idade Média. Ou o selvagem coliseu do Império Romano. Na época atual há programas na TV que têm bastante perversidade com os participantes e, também, aqueles de notícias policiais que nas tardes ofrecem material sobre crimes violentos.
E já que estamos com antecedentes, podem-se lembrar alguns títulos cinematográficos onde há caça mortal de humanos: “Open Season” (‘Temporada de Caça’, EE.UU., 1974), onde um trio de assassinos de animais delocam seu interesse para pessoas, “Hard Target” (‘O Alvo’, EE.UU., 1993), com direção certera de John Woo e, “Rollerball” (EE.UU., 1975), com um espetáculo muito destrutivo, o ‘esporte’ ultraviolento que representa o mundo e os participantes podem atuar de maneira brutal, sem limites.
Retornando a O Sobrevivente e focando nos profissionais que trabalham nele: o fazem muito bem Glen Powell, Josh Brolin e Colman Domingo. A música do inglês Steven Price sobresai, sem desmerecer a fotografia do sul-coreano Chung-hoon Chung e a edição do australiano Paul Machliss. Tudo em uma súperprodução, curiosamente realizada em maior medida na Bulgária, tanto na locação quanto em aspectos técnicos.
Visto como um todo, uma das perguntas que aparecem diante de O Sobrevivente é se uma obra que apresenta tanta patologia (ainda que envolta em ação) passa a ser ela mesma, também patológica. Ou seja, se simplesmente deve ser considerada como um entretenimento – inclusive bem feito – ou se é nociva em algum grau.
Por: Tomás Allen
(Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Paramount Pictures)
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